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Singular

27 de janeiro de 2023

Foto: Dan Meyers

Existe algum segredo na cadência dos meus passos, do meu gingado tenro e resoluto; no meu olhar cristalino, sempre admirado, que transparece candura e algo de densa compreensão. Parece haver um diminuto fio invisível que me locomove e me impulsiona espontaneamente, esnobando a engenharia complexa na qual o mundo externo se desenha diante de mim. É uma presença quase inconsciente e intimamente discreta, pois me abrange e me abriga, e de algum modo, sutilmente, sinto-a.

É um empuxo que me põe a investigar e abraçar as nuances da vida, da natureza, das pessoas que me cercam, feito um processo de microscopia em que me atiça enxergar as substâncias belas – e invisíveis – ao meu olho nu. É um olhar de dentro, um olhar da alma, uma completa inteiração dos traços, das diferenças e características que tornam cada coisinha tão única. Eu capturo segundos e eternizo momentos, alimentando um relicário com ricas experiências, praticamente imperceptíveis para uns.

Eu não entendo muito bem como vou tateando pelos caminhos, tampouco compreendo esta força que me ampara e me põe diante de encontros especiais, como um novelo que se desdobra e vai se revelando – para mim –, ocasionando-me em tons de assombro. Sou refém de escolhas que ainda não captei bem e me custa conceber o propósito pelo qual me dispus ao encarnar nesta vida. Sinto-me um explorador, um viajante que se propôs a colher aprendizados, ingerindo desde o mais belo ao mais desprezível.

Eu persigo desejos e sonhos muito profundos, e não tenho mais muita convicção se um dia os realizarei. Mas são eles que me impõem a caminhar descalço para sentir a vibração do mundo, a apreciar o entardecer de um dia ensolarado, maravilhar-me com simplicidades, como um abraço acalentado ou com o sabor de um café feito com amor. Eu perscruto o amor, mas no fundo, ele que me espreita de longe, enfeitando e colorindo os meus caminhos, para que eu seja preenchido com um sentimento tão singular quanto inexplicável.


Aspas do Autor: A cada dia percebo mais a importância em viver, aproveitar a vida e todas as suas singulares e ricas experiências. Viver é sempre se surpreender.

Ainda é cedo

21 de agosto de 2022

Foto: Cristian Palmer


Ainda me falta o ar, essa miúda resistência frente ao empuxo que a vida tem desferido. Tenho sobrevivido sob os escombros de sonhos antigos, quase esquecidos por essa poeira que se acumulou nesses dias tão íngremes e densos. Respiro, ainda que com dificuldade, as nuances que construí; os apelos que já gritei; os abraços suprimidos e desejados. Ainda é cedo para desistir, mas tenho tido, a cada dia, menos força para me jogar adiante.

Existe uma frequência que ajusta meus pensamentos, que endireita as passadas do meu corpo quase inerte, cansado e tão consternado. Há um luto que me enfileira em carregadas reflexões, na busca por vislumbres de esperança, de um acreditar que me reerga dessa sonolência. Ainda existe uma luz. E ainda é cedo para me entregar e virar refém do acaso, das transições imprevisíveis da vida; dessas curvas que traem a tola direção dos meus pés.

Ainda que me pese as inoportunas penumbras, e os choques pesados que levo no meu peito, esforço-me para decifrar as imagens que se formam na minha mente, desconexas e confusas. Nada parece se conversar quando eu desestruturo frente à um diálogo incompreensivo, em que tento pescar significados e razões. Dilato meus olhos para distinguir, em meio ao breu, a silhueta de um mundo feroz, que ora me prende, ora me solta. Ainda é cedo para tentar entender, mas nunca é tarde para me salvar.

Eu compro o que a vida me entrega, com a temperança de quem precisa serenidade e otimismo para não debruçar sobre as escolhas fáceis. Delibero meus estilhaços, sempre na firmeza de poder me recompor para persistir. Estou a um sopro de ficar entregue, mas a um passo de me encontrar. Eu me agarro em uma força que vai muito além de mim. Estou a metros do meu limite, mas o mundo me sussurra que ainda é cedo para abandonar a luta.

Aspas do Autor: É a única coisa que eu ouço de dentro de mim, todos os dias: ainda é cedo para desistir. É por isso que ainda estou por aqui.

Fora de frequência

13 de fevereiro de 2022

Foto: Mikhail Rudenko / IstockPhoto












Desde cedo, eu sempre tive a impressão de que o meu som tinha uma batida diferente. Com tanto barulho (ao redor), eu o ouvia com clareza, como se eu ecoasse quase inteiramente, em uma onda de radiofrequência distante e tênue, daquelas difíceis de sintonizar. Como se eu existisse em um canal de onda AM, aqueles canais de rádio bem escondidos, camuflados em meio a tanto chiado. Meu coração assimilou essa ideia por eu ter tido, até hoje na minha vida, tão poucos ouvintes, uma vez que só alguns já pararam para me ouvir, me entender, dar a mão.

É frustrante não encontrar entendimento, aquele olhar de quem se vê e se identifica, ou simpatiza nas entrelinhas de uma melodia; aquele sorriso de quem ouve uma música e se sente abraçado, quase que com o coração traduzido – e embalado – por aquele canto tão singular. Tudo o que eu sempre quis – e ainda necessito – era um pouco de empatia e paciência para me ouvirem, tamanha é a minha introspecção, também. Vez ou outra ainda sinto essa angústia em me sentir tão solitário ao ressoar minhas rimas mesmo em meio a tanta gente.

De nenhuma maneira isso define que minha música é melhor, tampouco pior, pois cada um, na sua medida e a seu modo, tem uma letra única. Até porque meus acordes, muitas vezes, soam desafinados, e como qualquer ser humano, tenho um refrão desajustado; uma música em constante composição. O que me incomoda não é a qualidade do áudio e da minha afinação, mas como a minha música repercute solitária em ruas não rotineiras, em um mundo onde as pessoas pararam de se atentar ao essencial. Não desejo aclimatar, mas apenas ser ouvido.

O que me preenche é esta sensação de que eu sou gênero vencido, como se eu me deslocasse em um ambiente que ouvisse preferencialmente funk, e eu fosse MPB. É um sentimento de arrasto, quase como se eu fosse pressionado a me esvair, a fugir e me esconder. Sinto-me abafado com tanto barulho. Sou entonação que não se ouve, bem distanciada do comum, partitura pouco convencional, som do qual poucos apreciam ou até então não conheceram. Sinto-me diariamente pressionado, refém de um mundo, de uma vida que busca, a todo momento, me equalizar à frequência pela qual todo mundo se transmite. Mas não é o que eu quero.

Faço a mea-culpa por ser alguém tão fechado, e não dar o espaço e a confiança suficientes para me conhecerem melhor. Pois, os muros que a vida me fez levantar, enfraquecem o sinal dessa onda por onde eu transmito (minha música) e que vem de tão distante dentro de mim. Sendo assim, sou consciente da minha responsabilidade em me tornar mais acessível, mais aberto, a mudar e tornar minha música mais sintonizável, sem precisar me adequar e correr o risco de perder a minha identidade e tudo que me diferencia dos demais. Deus me colocou fora da frequência por alguma razão, e eu só quero encontrar gente que me acolha e compartilhe um olhar de afeto e complacência; um ouvido atento. Nada mais.


Aspas do Autor: Depois de muito tempo ausente daqui, e perdido, escondido e refletindo, hoje quero me reativar,  ressignificar a minha escrita e o caminho da minha poesia. Vamos botar essa música para tocar novamente. Agora em outro ritmo. Espero que ela se torne audível.

De nós

27 de agosto de 2020




Parece que foi ontem que a vida fez nossos caminhos atravessarem, ligando nossos destinos de modo quase teatral. Ainda me é nítida a lembrança daquela conexão meio súbita, da rapidez com que nossos olhos se acostumaram, deram as mãos e caminharam juntos por um período. Lembro-me da cumplicidade que o tempo concebeu a nós, quando anotávamos os nossos sonhos em uma mesma folha de caderno. Aquela nascente que incorporou nossos pensamentos e nos encaixou tão reciprocamente, orquestrou, com o passar dos dias e das conversas tão fáceis, uma canção manuscrita pelos nossos encontros. 

Parecíamos displicentes e alheios ao que nos cercava, pois a aproximação nos deixou tão íntimos que parecíamos um só. Não havia distorções no nosso modo de entrelaçar os sentimentos, tal coesão e naturalidade sucedida naquele amor que ali se elevava. Era uma força quase incompreensível que nos sustentava, tamanha era a sintonia em nossas trocas, em nossas confidências, no nosso modo tão singelo de descobrir um ao outro. O amor nasceu tão imperceptível que um dia apenas nos deparamos apaixonados. Igual ao fruto que nasce de uma árvore. Nunca o testemunhamos frutificar, mas um dia a gente acorda e o vê, belo e agarrado aos galhos. 

Desde então nos tornamos presentes dentro um do outro, tão intrínsecos quanto o ato de respirar; tão inerentes quanto ao desejo de viver. Surgia ali um enlace que transcorria com exímia fluidez, unificando-nos em um entendimento espontâneo e orgânico. Era uma pressa que nos socorria, que nos queria livrar de uma aparente solidão. Realçamos nossas carências e nos abraçamos enquanto estávamos unidos ao que sentíamos. Parecíamos crianças descobrindo um mundo novo, pincelando faces coloridas em texturas antes tão acinzentadas. Tínhamos gestos pueris, mas éramos grandes na maneira de amar. 

Ao estarmos a centímetros um do outro; ao nos olharmos com os rostos colados; ao nos tocarmos; ao nos beijarmos; o mundo pareceu sancionar tudo o que havia nascido entre nós. Houve um enlevo de alegria, uma explosão silenciosa que ressoou lá dentro de nós, onde nossos corações bailaram uníssonos. Nos apreciávamos tão felizes. A memória de sorrirmos quase estáticos e em silêncio, vem límpida e terna. Mas quando nos encontramos, nós nos perdemos. Quando cruzamos a barreira da distância, a vida realçou muros intransponíveis. 

Ainda que os desejos fossem sinceros, e estávamos tão sintonizados, as dobras dos caminhos realçaram nossos limites. Teve um choque que afugentou nossas realidades e trouxe temerosas constatações. Só o amor não foi suficiente para a harmonização, porque é preciso muito mais que isso. E o teor de nossas condições afastaram-nos dos nossos sonhos tão cúmplices. Curvas em alta velocidade podem causar acidentes inesperados. E assim foi. A vida soltou nossas mãos tão rápido quanto uniu. Lembro-me que pareceu uma eternidade enquanto estivemos fitando o mesmo horizonte. Mas agora entendo o que ficou para sempre. 

Falamos tão pouco hoje, mas saiba que estou bem. E fico mais ainda por saber que aí do outro lado você igualmente está. Hoje eu te escrevo tudo isso por gratidão. Não é o momento do fim que guardo com absoluto. Pois nada acaba, apenas se transforma. Me atenho às memórias boas para sorrir ante aos sentimentos que, nesse tempo, engenhou pilares em nossas vidas, criando laços muito mais concretos. Porque a experiência de amar nos marca eternamente. Aprendi que sentir faz a vida fazer sentido. Não há arrependimentos ou desejo de voltar. Hoje eu só celebro a dádiva de um dia ter te conhecido e, muito mais ainda, ter te amado. De nós eu só colhi frutos. A esperança pela felicidade, a crença no amor e a sorte de ter vivido.


Aspas do Autor: Porque eu sei que você está bem aí do outro lado. O afeto será sempre. Abraço meu bem! Obrigado!

Desprendimento

6 de junho de 2020

Foto: Dan Gold/Unsplash.

É um ano de estranhamentos que tem me atrelado ao chão, com temerosas sensações. Tenho servido meus desejos no afã de solucionar os caminhos, agora tão abarrotados e turvos. Tem sido dias inflexivos, remodelando angústias interiorizadas que ressaem causando derradeiras afetações. Eu gesticulo para me soltar e descolar dessa névoa nos arredores de casa. Esse distanciamento, não apenas físico, tem realçado meus sentimentos e minhas prioridades. 

Há muito que uma tormenta tem desnorteado o meu senso de equilíbrio, meio que me arrastando para o porão das minhas memórias mais contidas. Nos últimos meses uma inquietação tem se formado na minha mente, traindo meu bem-estar e sobrepondo os pensamentos mansos. É um atropelamento que me estaciona, deixando-me padecente de sensações repreensíveis e penosas. Tento acordar no intuito de engavetar as apreensões desdobradas nesses dias tão [in]tensos. 

Hoje o peito devora-me em saudade, alienando o silêncio para as profundezas. Por tanto tempo estive adormecendo minhas memórias para reciclar um pouco de paz. Contudo, hoje exalta a vontade de delirar os versos do que tenho sentido. A solidão diária tem refletido meu coração que se dilatou com tanta poeira aglomerada no íntimo. Permito-me desprender do que tanto tem me acorrentado, afinal, o que busco é uma soltura para o meu introspectivo estado. 

Eu acolho meus olhares, pois percebo que preciso me ater ao essencial, ao que realmente importa. Tem sido dias de faxina, que intencionam raspar as camadas cinzentas dos meus muros antes tão coloridos. Foram dias e mais dias presos a um ciclo onde as palavras amanheciam mudas, acobertadas pela fragilidade do coração de se abrir, tornar livre a poesia que sempre tornou quem sou e o que me encaminhou até hoje. 

Precisou a vida refrear os meus passos para eu encontrar uma joia que tinha se perdido dentro de mim. Achei-a empoeirada, mas ainda com seu vigor; um terno querer que sempre lustrou o brilho dos meus olhos, a vivacidade dos sonhos mais íntegros que perfilavam na minha alma. Foi preciso parar por um instante para observar que aquela paisagem borrada, que eu pensava ver através da janela, era apenas o meu reflexo. Assim como tantos outros, eu vivia acelerado e mal me enxergava.

Hoje eu me desprendo para dar mãos, novamente, à poesia. Para me reencontrar.

Aspas do Autor: Por tantas vezes ensaiei voltar. Mas o coração precisava apenas de um momento para sair da toca. Que sejam dias prósperos e cheios de poesia.

Pulso intermitente

28 de setembro de 2017

Foto/Picture: Herbert Johan












Pois amor não é uma coisa transitória, é para sempre.
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Há uma engenharia ao redor que trai os nossos olhos, que alimenta o sorriso com uma fala que grita em silêncio. Movimentamos como que comandados por cordas, feito um fantoche nas mãos da vida. O corpo se acidenta em curvas que desapontam o coração, um desvario que arrasta nossos pés por entre rotas estreitas, contra a vontade daquele pulso que cutuca os gestos, aqueles desejos tão independentes que uniformizam a pele com o calor dos sentimentos. Tem uma força motriz que sustenta as pálpebras, mesmo diante da dor.

É um zelo que pulsa, um afeto que cutuca, grifando as emoções tão perenes e existentes no mais profundo da alma. Difícil se desvencilhar daquele toque que repercute, rotacionando os olhares por entre frestas ornamentadas com a elegância da poesia. É algo latente, imbuído com reflexos de um brilho que circula iluminando os cômodos mais íntimos. Nem sempre é possível admitir, acreditar que existe uma onda arrematando nossas margens mais seguras, freando nossa fuga com uma brisa lancinante e intensa, porém muito cálida.

O silêncio não nos deixa à vontade, pois algo lá dentro grita, apontando palavras a saírem da boca. Certas belezas denotam mais do que são, fluem sem intenção de parar, revelam-se ternas por entre as veredas da alma, espalhando seu sabor adocicado, sua fragrância que contorna o peito com um prazer singular, intrínseco e indescritível. Contudo, nem sempre o corpo responde, nem sempre a boca revela o que o coração tanto almeja dizer. Os dedos tremem, impedidos por um medo que paralisa o sangue, que coagula aquela efervescência arredia que circunda nossa presença.

É árduo a entrega, o passo que nos direciona ao abraço. Pois o amor que gira pelo peito nasce e frutifica, floresce e nos arquiteta com uma estrutura vívida e brilhante. O sentimento lateja intermitente, reerguendo-nos das quedas, tal como o sangue potencializa a vida que o coração nos entrega. Padecemos na tentativa de negar, de fugir de uma mão que nos convida a adentrar em um barco pronto para navegar no maior dos oceanos. Porque para amar é preciso aceitar o convite de um vento que tremula intermitente sobre o nosso mundo.

A gente olha e emudece, deseja e imagina, todavia, não nos insinuamos. O medo nos deixa distantes, mesmo que estejamos a poucos centímetros. Coisas importantes são difíceis de serem ditas e admitidas, ainda que no fundo a gente saiba bem o que sente. É necessário suportar ladeiras íngremes, investindo em coragem para entender que existe um bem rodeando aquela magia que despontou na ponte construída entre dois olhares. Afirmar pode ser um passo duro, mas necessário. Não apenas para nos aproximarmos de quem amamos, mas para não nos distanciarmos de quem realmente somos.

Aspas do Autor: Às vezes, coragem maior, é negar o que no peito ecoa...

Ressonância

28 de agosto de 2017

Foto: Robin de Blanche













Queria deitar os olhos, pousá-los nestas texturas brandas que irrompem pelos cantos da minha alma, pois o peito vibra em frequência a esta onda que me atravessa, rasgando em plenitude o pouco de paz que prepondera no meu íntimo. Sinto-me incinerado por uma presença que me amarra, que devasta e me desconstrói, afugentando as tormentas que acorrentaram meu coração a um vazio angustiante. 

Foi por uma fresta que eu desconhecia, um vão despercebido pelos meus agudos e sonoros desejos, que o frescor subitamente me incendiou, deixando-me vulnerável e refém de um colo macio, embevecido em uma ternura aprisionada e rara. Foi uma seca dedução que regimentou com pura poesia os cristais dos meus olhos inchados e tão aclimatados, adormecidos por este sonífero em que o mundo tem se tornado.

A cada segundo um tremor, uma palpitação coercitiva que me encadeia nas vibrações de um sorriso singular. É um calor visceral, que desabotoa as emoções mais rubras, consumando o coração em uma fugaz despedida, um despertar que aquiesce e me edifica, eleva-me em furor; engole-me em rompantes de pura sedução. O medo tripudia sua orquestra em tons afiados, violando as vestes com um toque pueril, mas anestésico. 

A poesia saliva sua essência, e delibera rimas perdidas, desfalecidas, em meio às nuanças que outrora desvendavam meus olhares tão pincelados com romantismo. É o segredo que oblitera as escolhas, e arrefece os gestos em um súbito subterfúgio, rescindindo minha pobre alma em ermos e doloridos estilhaços. Eu me reinvento, pois há muito não sentia o ar nestas paragens. Foi uma lágrima que tornou novamente fértil o solo da esperança.

São os olhos que ladeiam minhas margens tão insípidas, reluzindo um toque revigorante, deliberando novas faces para este ruído inebriante que rompe as cortinas de um amor envolvente, uma nova e torpe tempestade que rotaciona o universo que se esconde dentro de mim. Eu me perco nestes segundos nos quais meu corpo estaciona e visualiza a engenharia das estrelas, deste céu tão alinhado ao meu.

São fagulhas que transpassam frestas, raios castanhos que colorizam as ruelas cinzentas por onde meu corpo, durante longo tempo, vagueava. Foi um encontro em meio ao desencontro que ressonava por todos os centímetros da minha fatigada alma. Ainda que me embriague, reato meus desejos à realidade, almejando absorver esta vibração que convulsiona, por inteiro, meu coração. Em meio a este silêncio que repercute e me enlaça, eu adormeço. Pego-me às vezes desejando acordar, pois já não sei mais se estou vivendo.


Aspas do Autor: Eis que uma fragrância reanimou as batidas de um coração tão remendado pelo tempo. Mas sabe, ainda não tenho certeza se isso era realmente o que eu queria. Antes não poder discernir, desviar dessa frequência que me alimenta. Chega de repetição. Eu quero mãos juntas...

Despedidas

31 de dezembro de 2016














Chega aquele dia em que você abre os olhos e se sente noutro mundo. O dia irrompe com um aspecto incomum, pouco familiar, suprimindo aquele bem-estar tão característico das manhãs. Nem o cheiro da rotina é capaz de despertar o frescor das memórias, aquela intimidade estabelecida com o que lhe cerca. Diante do espelho, você mal se conhece. A imagem é meio embaraçada. A procura por respostas é irrefletida, demasiadamente vã. Não há um impulso frenético, uma intuição cutucando os cantos da alma. Não há nada, de fato.

Essa imersão insere você em um estado quase mudo, em uma maestria furtiva que acalenta a alma. Ante o desconhecimento, o silêncio faz-se mãe de todas as ações, superfície que apazigua brandamente esta aflição. É um estado erradio, em que o corpo nem sempre responde direito aos sinais externos, como em um ato de fuga, em que tudo responde apenas ao ato desesperador de correr. O momento, ao se prolongar, evidencia a apatia pela qual se vira refém. A vida transfigura e estranha-se inicialmente este “virar de página”.

O mundo se apresenta como se fosse a primeira vez, igual dia em que você abriu os olhos, logo ao nascer. Você é reapresentado a este ciclo que gira interminavelmente, período após período. O corpo sente a transição, e fica deslocado, simplesmente perdido. A mudança de um dia para o outro é abrupta, e o coloca vítima de uma inesperada despedida. É tudo muito fugaz. Em um sopro você se aparta das texturas de ontem. Mal tem tempo para se desligar das nuances de outrora, da simetria enternecida das memórias, que davam formas à vida.

Viver é repleto dessas despedidas, desses giros que estacionam e impulsionam, logo em seguida, a alma a voar. A semente é regada todos os dias. Quedas e experiências moldam a alma, o corpo – a mente. As vivências tornam-se professoras de diversos aprendizados. Você absorve e aprimora; e quando menos se espera, floresce e frutifica. Todo dia você se despede de partes que já te representaram, para dar lugar a um novo ser humano. Mudar é sempre entrar em um estado de êxtase, em um novo cômodo jamais visto antes; um espetáculo solitário, apreciado por ninguém além de você mesmo.

Crescer é ganhar nova forma. Amadurecer e mudar são eventos pelas quais inevitavelmente todos estão sujeitos a vivenciar. Fazer novas escolhas, seguir e definir novos rumos e prioridades são sinais de que a sua alma está se despedindo de resoluções velhas. Você se sente em outro mundo, pois está adentrando em uma nova caminhada, rodeada de novas paragens. É necessário sempre estar pronto para despedidas, dar lugar a novas páginas, a novas paisagens e olhares. O mundo segue sem esperar. E cabe apenas persegui-lo, agarrando as oportunidades de crescimento que surgem diariamente, deixando para trás os dias velhos e dando boas-vindas aos novos dias, que estão de braços abertos para você.



Aspas do Autor: É assim que eu quero me sentir em 2017, adentrando novas paragens, deixando para trás velharias e dando espaço para viver novas experiências e conquistas. Uma nova fase. Assim espero. Feliz 2017 a todos. 

Florescência

7 de dezembro de 2016

Foto: Missninaka













Todo dia eu mudo. A cada dia [fico] mais mudo. Emudeço em efeito ao acalanto doce do curso diário. Mudo, pois sou passageiro. Mesmo que eu já tenha sido mais afoito um dia, não me importa mais ter o controle. Já faz alguns anos que me desprendi e, hoje, feito folha solta ao vento, sou conduzido, sem que tenha muita escolha, sem precisar deliberar descansos. O tempo e a vida nunca dão pausa. Deixo os dois agirem em mim. É preciso seguir o curso, afinal.

Com isso, compreendi que para certos caminhos, não basta apenas querer segui-lo, mas estar capacitado a adentrá-lo. Não se pode forçar a vista para enxergar o que é [ainda] difícil entender. Tampouco abrir demais os olhos quando há luz em excesso. Ela pode cegar. Aprendi que só a vida distribui permissões. E que é preciso agarrá-las com vontade. Não é fácil. Elas se escondem na persistência, por trás de muita força de vontade. Foi através da minha capacidade em acreditar, que descobri recursos para crescer.

Nunca desisti, mesmo que por muitas vezes eu tenha desejado. Ainda que as tempestades me afetassem, a calmaria sempre trouxe clareza na mente. Diante de tudo o que tenho e já vivi, seria indigno inventar motivos para lamentos ou abandonos. A felicidade caminha do meu lado. Esse é outro aprendizado. Nos braços da dor, de toda a aflição que espeta o peito, nós não enxergamos o essencial, o coração parece ficar coberto por uma cortina, soltamos nossas mãos do que é realmente bom. Tristeza causa cegueira. Desconexão. Sob os seus efeitos, nenhum ato soa coerente.

Os anos foram pincéis que aprimoraram meus traços mais humanos, e deram à minha alma, mais cor e vivacidade. Aprendi a me aceitar como um esboço que vez ou outra ganha uma nova demão. Não sou obra finalizada (e dificilmente serei), mas moldado pelas mãos do tempo, hoje tenho traços de homem, de um alguém melhor que ontem. Com temperança fui colhendo as permissões para crescer. Com serenidade, colhi um pouco de frutos. Pois a vida deu raízes aos meus pensamentos, fomentou minha seriedade, delineou meus comportamentos, disponibilizou recursos para que eu florescesse e frutificasse.

Olho as pessoas ao redor e vejo como se transformaram. Tudo ao redor me põe na realidade crua. Mas o olhar não envelhece. Continuo enxergando tudo com aquela inocência de seis anos. Afinal, nunca deixei de ser menino. Um menino que talvez nunca vai interpretar a dimensão daquilo que o cerca, tampouco compreender as nuances de uma vida astuta e indecifrável, muito menos o mistério que cerca os sentimentos. Isso às vezes é o que me desloca desse mundo. Aprendi a ir além. E moldei crenças que não se espelham por essas calçadas solitárias; cultivei amores que não se veem mais por aí.

A verdade é que as mãos macias da vida me silenciam a cada dia. Crescer é ganhar discernimento. Mudar é emudecer. O amadurecimento traz um pouco de solidão. Todavia isso me fez ver o essencial. Aprendi a focar meus esforços no que vale realmente a pena. Ficar mais velho traz certas vantagens. Parei de dar importância à alguns detalhes que agora são irrelevantes. À essa altura, pouco me chama a atenção. Amadurecer me fez renunciar de escolhas, descobrir outros caminhos e enumerar novas prioridades. Continuo em franca evolução, não sabendo bem o que encontrar adiante, porém, sabendo muito bem o que deixar para trás...


Aspas do Autor: Eu no eterno processo de maturação. Ser humano é isso. Viver é isso.

Desconexão

22 de março de 2016

Foto: Danny Roozen













O cerco se fecha diante dos olhos, conduzindo nossos mais fidedignos apelos por caminhos estreitos. Há momentos em que apenas viramos elos fugidios de uma arquitetura muito além da nossa compreensão. Culpa da escassa frequência que nos desalinha ao sussurro humano, e proporciona calor à frieza dos dias vazios. Debatemos em meio aos meandros pelas quais somos aniquilados, salientando sonhos, costurando emoções e desvencilhando as vestes aquiescidas pela sombra da dúvida. Nem sempre fica tudo explícito. 

Giramos o rosto e não conseguimos mensurar a nitidez de um mundo que adoece; investigamos rostos difusos, e paisagens abstratas, elementos carentes de assimilação. Situações caem ao colo, mostrando que há ainda encantos, porém, por escombros pouco aparentes. São raros os momentos em que não nos sentimos distantes, desconectados dessa trilha em que a vida, calidamente, nos coloca. Os passos anseiam terra firme, clareza nas emoções; a alma mira um encaixe, abraços indulgentes e apelos francos. 

Os olhos caminham vazios, em uma vã tentativa de esmiuçar sentimentos concretos, de desentrelaçar os nós que surgem enquanto perdidos. Falta consistência, elementos que conduzam energia à nossa ‘fiação’ interna. Não há consonância. Trilhamos os dias à espreita, vítimas de rompimentos que nos desligam do essencial; que nos jogam paralelo às curvas do mundo. Mal distinguimos um passo à frente. Tudo anda muito desfocado e fora do lugar, com cores desbotando e melodias emudecendo. 

Padecemos em esporádicas alegrias, denotando a fraqueza que se delibera por corpos cansados. Os mecanismos vitais parecem falhos, desunidos. É esta sensação que preenche o íntimo, que nos cerca em profunda sonolência, como se quase tudo tivesse perdido a vivacidade e o brilho. Não há mais aquele torpor, aquela emoção que sorri discreto dentro da gente. Porque as calçadas andam vazias por demais; os corações repletos de ar, apenas. Cadê a essência que dá vida? Só visualizamos ruas silenciosas, multidões que não se encontram por estarem tão desligadas de si.



Aspas do Autor: Meio perdido. Mal consigo andar nessas linhas tortas da vida...


Entre buscas e tentativas

29 de fevereiro de 2016

Por: Reddog54













O silêncio ecoa pelos cantos, como gritos mudos, apenas audíveis pelo meu coração sedento por respostas, por algum misterioso sinal de compreensão. Olho para as estrelas, numa tentativa inocente de me sentir menos só. É um gesto de concordância que investigo, rumos escondidos por onde minha intrépida poesia anseia se expressar. Lanço-me em buscas que desafiam meu raciocínio, que me emparelham frente ao obscuro dos dias, de um mundo longínquo pelo qual me atrevo a trilhar.

Lentamente torno-me passageiro desse sopro, dessa morna carícia que ainda me extrai o senso de humanidade. É o apelo sincero que me instrui, é o amor pelo belo que me impõe a rebuscar o que se destoa. Reflito na esperança de validar as crenças que me preenchem, que aquiescem meu espírito valente e, por vezes, temerário. Adormeço e me encaminho, palpitando roteiros para uma nova caçada por alegrias, contentamentos que amenizem os avessos do meu sentir. Entre buscas e tentativas, padeço meu olhar franco e resoluto.

É a consistência de dias legítimos que eu busco, feito o sossego que se vivencia na beira de um lago. Sou feito de uma textura que ainda desconheço, mas desenha em meu semblante uma determinação irrepreensível. Mesmo que, por vezes  – digo, muitas vezes –, surgem momentos que cansam meus passos, minhas entregas frente a sonhos tão intangíveis e distantes. Sou feito de tentativas, e são delas que me atrevo a ir além do que sou, do que vislumbro e experimento ao redor. Sou refém de uma prova dura, da qual sou incapaz de abandonar.

Cada experiência é um ensaio, sem limites para testes; um teste que não me reprova, mas me prepara e me condiciona a suportar, vez ou outra, algumas quedas. Não é uma vitória que almejo, tampouco um troféu ou medalha, nem um prêmio que me qualifica na vida. Os meus olhos miram o teor de momentos singulares, de acenos que confabulam, de afetos saudáveis, aquele amor que ainda enobrece meu peito, tão desejoso por um cálido abraço. Em meio a tentativas, vou desbravando a penumbra dos caminhos, para quem sabe desvencilhar os encantos que tanto anseio e tocar na epiderme dos meus sonhos.

É uma busca fiel que me alimenta; um empenho árduo que agracia minha alma e desembrulha resquícios de esperança. E tantas experiências me acalentam, no fim das contas. Muitos detalhes têm trazido discernimento ao meu coração. Talvez não seja tão importante encontrar o que se busca, afinal. Essencial mesmo é estar decidido a nunca desistir. Quanto a isso, estou.


Aspas do Autor: A busca é incessante. Mesmo que eu acumule tentativas, em algum momento toda essa busca valerá a pena...

Ao alcance

1 de agosto de 2015

Foto: Zsolt Zsigmond


Tudo o que um sonho precisa para ser realizado
é alguém que acredite que ele possa ser realizado.


Os olhos alcançam mais que as mãos, acenam em distâncias o que nenhum gesto de corpo é capaz. Mesmo assim continua longe de se ver o além por trás da linha do horizonte. O quadro da vida ao redor, classifica e nos limita, impõe-nos feito uma estátua com espaços para poucas lapidações. Mas da mesma forma como as paisagens são mutáveis com o tempo, nossa alma se transforma ao mínimo movimento. O olhar pode mirar o verso do horizonte. Com aprendizado nos tornamos capazes de alcançar os sonhos escondidos por trás do tecido celeste. 

É possível atravessar fronteiras, exceder os limites da nossa capacidade para concretizar os desejos mais íntimos. Viver é uma constante surpresa quando nos condicionamos a galgar os degraus com afinco e determinação; quando cada dia é vivido na totalidade, pelo anseio de ser feliz, em alcançar as realizações que aprimoram, com sorrisos e orgulho, o ser dentro de nós. Não sabemos o que nos aguarda, porém podemos lutar para nos tornar e realizar o que queremos. Há possibilidades, chances de superarmos os desvios e obstáculos para alcançar os prêmios por se viver.

Não é preciso apenas querer ou acreditar, mas fazer dar certo, viver e sustentar o anseio, pouco a pouco, dia após dia. O horizonte se expande na medida em que seguimos adiante. E então, no seu devido tempo, os sonhos se descobrirão, estando ao alcance de nossas capacidades. Quando o dia nasce, e o sol desponta faceiro em nossas vidas, atestando a beleza de nossos alcances, percebemos como cada vitória é um alento e nenhum sonho existe em vão; todos seguem uma razão para nos orientar. Porque nos permitem viver. São paisagens muito além do alcance dos olhos, mas aprendemos que é possível de ser avistado, sobretudo, vivido.

E sem dúvida, após muito trilhar, viveremos, tornaremos real e próximo o que nos impulsionava. Cresce-se ao vivenciar, ao sentir o sabor de uma vitória, regada com muito esforço e entrega. Realizar um sonho pincela não somente sorrisos no rosto e na alma, mas a certeza de que nada está tão distante que não esteja ao nosso alcance.



Aspas do Autor: Sonhar orienta os passos rumo à felicidade. Tudo está ao nosso alcance. Basta acreditar. Eu acredito.

Fora de sintonia

18 de julho de 2015

Arte por: Alex Cherry



Tenho servido meus pensamentos com serenidade e calma, tentando dissuadir as circunstâncias do que vivo para ser capaz de seguir adiante. É numa pegada suave que direciono meus esforços no entendimento da dimensão dos dias, ultimamente tão letárgicos. O olhar parece meio distante em meio ao acúmulo de experiências, em resposta ao alvoroço pela qual não tenho me adaptado. Sinto-me díspar, como se tudo ao redor fosse efêmero, apenas um esboço desfocado.

Tênue é o caminho pelo qual me lanço – com certo receio – sem imaginar o que me aguarda. Sinto como se algo não encaixasse, não servisse ao propósito pelo qual me apresento. O horizonte nunca esteve tão nublado quanto antes. O amanhã nunca esteve impenetrável. Amparo-me em súbitas esperanças, na tentativa de aplacar um pouco essa desconhecida aflição. Pareço meio fora do trilho, em desequilíbrio com a ordem vigente. É coisa de momento, situação essa que me desorienta e me larga à margem, perdido e sem direção.

Segrego sonhos em um fino desconforto, senso que desorienta meus mais sagrados passos. Em desalinho me altero, buscando encontrar o prumo, a rota para minar os temores e o cansaço dessa paralela busca. Arduamente luto para realinhar a órbita do coração, equalizando a frequência dos meus pensamentos, da minha larga fé e meu colo tão denso e farto em amor. Ando sem sintonia, sem sentir a sequência das horas, a passagem dos dias e dos abruptos momentos que, por fim, sacolejam minha saúde.

Vou apelando à minha alma, sedenta pelo sorriso derradeiro e pelo abraço caloroso dos raros dias, um momento de glória, uma ocasião onde os braços possam vibrar pela cálida felicidade. Tudo tem me deixado distante, longe em algum lugar, à parte do que se segue, do que flui e nasce. Mas é com destreza que vou desvencilhando dos elementos que lesam a frequência do meu sinal com o mundo, com a vida. É uma batalha diária e franca, para novamente voltar ao eixo e seguir adiante. Vou na fé.


Aspas do Autor: Espero em breve afinar as cordas. Tudo anda muito desafinado...

Sublime

2 de maio de 2015





Os sopros esguios e sublimes, das tenras e ermas manhãs, causam dobraduras na essência não visível que se sustenta pelo ar. O belo se equaciona e se instala furtivo na textura não palpável da vida. É um rebuliço de encanto, de viço singular, adormecido em enfeites que transitam por aberturas calibradas com a maciez da natureza. Sublime é a transição silente, o avanço das horas, o acolchoar do dia com afago, um deleite que enriquece o pulso vital do mundo.

É um ciclo sustentável, amparado num toque que delibera, e flui, abraçando o cálido tecido do amor, como tulipas que reagem ao abraço caloroso do vento; como sorrisos que agem como maestros de um afeto doce e secular. As vidraças desembaçam com os olhos poéticos que lustram o translúcido querer que vinga no peito. Mares revoltos se abrandam sob a regência das estrelas que vagam no céu, desembrulhando pacotes de esperanças. São segundos, horas, dias ou nada.

A vida nasce de um roteiro não descritível em palavras. É aquele silêncio que não se traduz em abraço curativo, em um gesto que retumba a melodia sublime da criação, feito outono debruçando primavera em uma misteriosa compreensão. É poesia que enverniza o azul do horizonte, tal como a luz que destila sua magia ao colorir a trama de um eloquente universo, conferindo um corpo ao breu. Um espetáculo nascente, princípio de uma rima há muito presa na língua e oculta pelas penumbras do medo.

A vida desabrocha, sustenta-se como flor que se abre em infinda beleza, torneando suas pétalas e exalando sua mais preciosa fragrância. É uma singularidade, simplicidade que se torna de dimensão incompreensível, porque é sentimento que acaricia em um acalanto sublime, numa exultação aprazível, discreta e rasteira. Há um desmedido zelo que acidenta corações com leveza, e preenche a alma com rastros de fé inabalável. Presenciar é ter paz, é sentir fluir, como um riacho desviando solene das pedras, em uma profunda meditação.

Não há algo tão majestoso quanto a passagem do dia, nem do quão imponente é o embalo natural das coisas, um organismo responsivo por si próprio, subserviente à programação a qual lhe foi incumbida: ser independente. Tudo se torna porque foi feita para ser assim. Tudo tem vida própria. Nasce e morre porque é o seu desígnio. É um processo tão único o modo como as coisas giram e evoluem, um pilar para o perfeito equilíbrio de um universo inteiro que vive sobre sua própria existência. Não é apenas lindo, é simplesmente sublime.



Aspas do Autor: Tudo ao redor é tão inexplicável, por isso sublime. Gosto das coisas indecifráveis, mas que encantam de maneira tão profunda a ponto de satisfazer plenamente meu coração. 

Leveza e crescimento

18 de abril de 2015




Teço com a fibra dos acontecimentos uma cabana de paz, um santuário para repousar as dilatadas explosões advindas de aborrecimentos. Existe um ritual que me permite segurar, amparar-me na mão suave de um anjo. Sob a proteção de uma força maior, eu equilibro o que há de pior. Ainda há ranhuras na estrutura da minha alma. Não me envergonho das fissuras que existe ao meu redor. São por elas que deixo escapar excessos, exageros que me tornam vítima mesquinha, um portador de lamentos desproporcionais. Mas o pior me aproxima do melhor.

Aprendi a não dosar mais o sofrimento, e isso me faz evacuar dores acima do que senti. Torno tudo grandioso quando no fundo sei que nem sempre é justo. A vida tem conflitos piores. As pessoas são reféns de experiências mais extenuantes. Mas há muita poeira acumulada. E aprendi a soltar. E degustando o excesso encontro o remédio para a leveza, o colírio para abrir os olhos diante da neblina que se faz. A clareza vem rápido, logo tudo se ajusta. É um crescimento a conta gotas. Mas sou humano, preciso ter paciência.

O emocional me desajusta, me dilata, me cega. Por dias posso estar com a vista embaçada, em momento de tristeza. Mas nunca hei de ser triste. E ela nunca me desvia do caminho, dos princípios que me sustentam. Posso parecer vítima demais sem ter esse merecimento, mas nunca prejudiquei ninguém com meus exercícios de amadurecimento. Nuvens negras são sempre passageiras. E se dissipam mais dia ou menos dia. O racional é que me injeta a [re]flexão de pensamentos sensatos. Avalio tudo com mais frieza. A esperança se retroalimenta. A mente flutua em paz.

O que vivo me aproxima da leveza. O que sinto me faz parte de um mundo distante, porque no fundo eu busco a sintonia. É isso que eu chamo de crescimento, a disposição de me situar, mesmo após duras quedas ou excessivos choros. Poucos entenderiam esse modo íntimo de corrigir as falhas, essa estranha façanha de encontrar equilíbrio. E por isso estou sempre em paz comigo, porque somente eu conheço a cor dos meus valores. E estar com a consciência tranquila é a melhor coisa do mundo, a que mais me traz leveza; a que realmente desperta um mínimo de crescimento.
 


Aspas do Autor: Cresço, decresço, me faço molde nas mãos da vida. E na medida dos meus limites vou dosando os passos e vivendo, vivendo...
 

Amortecimento

20 de dezembro de 2014

Foto: Joanna Jankowska



O dia conflui sem certeza, sem cor, sem textura perceptível. O vazio decora a margem da alma e todas as nuances se extirpam sob o véu da iniquidade, abraçado pelo medo dos dias confusos. Tudo se torna leve por conta do esvaziamento que o findar propicia. A vida equaciona em nossos peitos uma infinidade de sonhos engavetados. Desbotam os tingimentos, e liquefazem as virtudes mais concretas.

Falta, sobretudo, a garra, um pleito de coragem que debruce esperança e anseio por melhores encontros e dias mais lindos, momentos de valores inefáveis. A caminhada dos dias obscuros cansam os olhos, padecem o corpo numa incólume condição de paralisia. Falta ajuste em meio a tantos entroncamentos e caminhos sem placas de orientação. Porque a vida não aponta, não deixa evidentes suas maravilhas.

Apenas acontece. E insurge no peito um torpor que amortece a pele, e engrossa a cortina do céu. Escurecem as expectativas, a paisagem vislumbrada pelos olhos, os sonhos cultivados no solo do peito. Faltam abraços cativos em um espetáculo de ausências, de distanciamentos que incide solidão em nossas vidas. Anoitece lá dentro, como um findar que esgota as energias do íntimo, as mais suntuosas dentro do âmago.

Falta a inspiração para completar o significado dos gestos, para rechear as palavras com sentimento e emoção. Às vezes tudo é levado pelos dias incomuns, pelo negror dos acontecimentos. E pairamos solenes diante de um passivo desespero, de uma inconsciente condição de receio. A vida por vezes amortece nossos olhares, a saúde que impulsiona o coração a pulsar, os pés a andarem. E só nos resta aguardar o dia nascer de novo, como em um ciclo ininterrupto de renovação.



Aspas do Autor: Hoje os dias andam amenos, mas muito vazios... À espera de novas inspirações. Quem sabe em 2015...

Mais um olhar

6 de dezembro de 2014




Eu nunca tenho a impressão de envelhecer. A cada dia que passa me sinto o mesmo menino de sempre, com sorriso solto, pensamentos livres, com o frescor jovial estampado no semblante limpo e sincero, como quem quer muito ser feliz. Contudo, a mais significativa mudança é a menos evidente: o meu olhar. Todo dia me torno capaz de enxergar mais longe, visualizar detalhes não percebidos antes, texturas novas nas paisagens que me circundam. Mas ao mesmo tempo em que o mundo se expande, ele se encolhe. Porque no fundo, quanto mais absorvo da vida, mais infinda ela se faz. A vida é uma fonte sem limites de aprendizados, de encantos e belezas. E nela meu olhar adormece, sondando as riquezas imateriais diluídas pelo ambiente, escondidas por trás de horizontes. Somente isso tem valido a pena viver. O que encontro e desembrulho das cortinas do mundo faz valer tudo o que carrego dentro de mim, o que orienta minha conduta, meu jeito humano de ser. Hoje não completo mais um ano de vida, hoje ganho mais um olhar, mais uma maneira renovada de traduzir os enigmas que pelo meu lado, passeiam. Com isso, tudo faz sentido, tudo vale a pena. Não preciso de muita coisa além disso. E se as pessoas pudessem ver através dos meus olhos, entenderiam os contornos belos que existem no meu caminho.


Aspas do Autor: Além de tudo isso, meu maior presente de aniversário, eu já ganho todo dia: fazer parte de uma linda família! :)

Na corda bamba

18 de outubro de 2014

Ilustração: Roberto Weigand


Um deslize e escorregamos, tombamos da tênue corda onde nossa diminuta alma caminha. A cada choque com o chão, estilhaços [de nós] saem como fugitivos amedrontados. Diante de tantas testemunhas, o impacto no solo não é só doloroso, mas vergonhoso. Não há meios de voltar sem sequelas, sem afetação, sem que sintamos desconforto. O retorno se dá com treino adequado e intenso. Apenas com muita disciplina encontramos o ritmo e a sintonia do equilíbrio.

Não nos é permitido vantagem, sequer uma moleza que nos encaminhe ligeiro ao organismo das lições, menos ainda algum suporte diante das fraquezas, de nossas falhas repentinas. O espetáculo segue ininterrupto e a plateia não suporta pausas, a programação não se altera e nada se adequa às nossas limitações, tampouco há reestruturação na estrutura do palco. Quando na corda bamba, estamos apenas sobre nossas próprias forças.

Andamos sobre corda bamba o tempo todo e o processo de aprendizado é longo, as quedas são inúmeras, principalmente as lesões. Algumas dores ecoam profundo, atingem tecidos internos da alma, a engenharia íntima dos nossos sonhos sofrem fissuras, em efeito à realidade da superfície tão dura. O caminho para a tranquila passagem sobre os fios poéticos da vida é antecedido por muita reflexão, por embates que põe nossa consciência diante dela mesma, quando os limites espelham-se em si e percebemos as rotas para melhor ser. 

Cair traz o choro cristalino do discernimento. Aprender é olhar para dentro, é extrair dos olhos o alcance que cada espetáculo nos exige. Crescer é saber adentrar o pequeno confinamento onde ficam nossas esperanças desenhadas e residem as capacidades a serem aprimoradas, as pedras brutas a serem lapidadas. Por mais que certas condições frustrem, nos coloque solitários diante dos desafios e do mundo, apenas nos tornamos humanos ao persistir no equilíbrio, nessa tensão que é estar sobre a corda bamba em que a vida nos põe. 

Escorregar da corda é condição inseparável ao aprendizado, e por mais que, como fuga, estar no chão seja cômodo às vezes, subir de novo na corda em busca de equilíbrio, a despeito de qualquer balanço assustador ou baque doído que possamos sofrer, é imensamente gratificante.



Aspas do Autor: Essas palavras nasceram após eu despencar bruscamente da corda... Mas, sigamos em frente.

Integridade

11 de outubro de 2014

Foto: Pierre



Eu não permito que o avesso dos olhares me corrompa, nem que a beleza das cortinas me impeça de esperar pelo espetáculo. Sou afeito a delicadezas, afoito em querer decifrar as pistas por trás dos sorrisos, de todos os carinhos silenciosos. Não permito que o torto desvirtue meu caminho. Faço a curva, mas não descarrilho da trilha pela qual a fé me move. Mudo de frequência, mas a essência que suscita o amor permanece inalterada. Sou verbo manejado pela crença da felicidade.

Não dou margem a perfeições, porque sou cobaia dos dias latentes, do mórbido que atinge o alicerce dos olhares, das esperanças inconclusivas. Sou experimento que se debruça nas distintas vivências, nos matizes destoantes que a vida me oferece, juntamente com seus desafios. Alio minhas vontades à determinação cega de ir em frente, sem pestanejar, sem hesitar na busca pelo o que acredito. Sigo em uma solitária andança, peregrinando pelo melhor, por respostas que contentam meu coração sedento.

Nada altera minha integridade, meu zelo pela clareza e espontaneidade. Deixo a sinceridade fluir, abrupta e sem filtro. Permito as palavras saírem em efeito aos sentimentos que almejam a vivacidade de dias tranquilos, de amores marcantes e amizades singulares. Ninguém destrói minhas fortalezas, as bases sólidas por onde meus pés caminham. Sou andarilho de minhas próprias fraquezas, mas um eterno aprendiz nas minhas raras virtudes. Cresço por intermédio de minha perseverança, e com a assistência de pessoas verdadeiras, sem desrespeitar o espaço do outro.

Vivo numa encruzilhada de dúvidas, e padeço em inúmeros pensamentos, embaçadas resoluções. Aprendo o humano de forma pausada, mas sigo em um ritmo pelo qual o mundo me deu e que atesta meus desejos com legitimidade. Sou sujeito de minha própria honradez, uma semente regada pelos princípios ensinados desde criança para mim. Sou peça de uma poesia esquecida, de um sentimento há muito esvanecido e que eu quero desvendar noutras paragens e [a]braços...



Aspas do Autor: Nada altera meus planos de buscar o melhor, de almejar sempre melhorar.

Sopro célere

6 de setembro de 2014

Foto: Sandra Engberg


Tudo aparenta passar tão depressa, embaçado às vistas que mal se inteiram do ambiente que transaciona célere, em uma desenfreada fuga desapegada. A essência flui como uma correnteza sem piedade, sacolejando a estrutura móvel dos dias e esvaziando todas as estantes onde se estacionam as belezas, os aprendizados e a sanidade espiritual que tanto há na vivência sistemática e cadenciada.

Pouco se ajusta nessa soltura acelerada dos aspectos que nos abraçam. Estatelam pelos infinitos horizontes, feito luz que se dissipa inesperadamente. Perdemos o apego instantâneo, o ritmo enclausurado em nossas bases humanas. Talvez pelo desajuste íntimo e humano do tão essencial em ser, estar e viver. As brasas ondulam numa avidez pouco perceptível, de tão rápidas.

Há pouca nitidez nos pontos aos quais nos arremetemos. O raciocínio parece estar burlado por uma massa opaca, um campo de força que se alimenta de nossa concentração. Falta retoque e zelo, carinho e emoção. Dias passam como olhos piscam; anos se atropelam, feito uma frenagem que acidenta carros. Não há regra que diminua o solavanco da busca desordenada, da aceleração que incide nossos passos a um fatal arrebatamento.

Não é saudável ver a falta de cores, o cinzento se impregnar por causa do despreparo, da imperícia em pintar dias mais bonitos, em avistarmos o belo horizonte que se ostenta em nossas íntimas reclusões. O sopro célere de nosso descuido faz com que falte clareza nos detalhes ao redor, retira nossa perspicácia em perceber a avidez de um mundo essencial, de um templo que ancora nossas principais alegrias e vontades.

Perdemos o tato, o elo com a vida, com o primordial. Pairamos num ritmo deslocado e além, em uma paralela dimensão, próxima e distante ao mesmo tempo. Tudo parece desbotado, sem emoção e importância. Acontece que dispensamos em excesso nossa capacidade humana de subverter o simples em grandeza, de conferir poesia ao miserável, em dar cor ao que aparenta desprovido de vida.

A verdade é que tudo continua em sua condição normal – e natural –, desde os primórdios. Nossas nuanças humanas é que desprenderam do ciclo e se desligaram do fluxo universal, suspendendo-nos em uma correria sem precedentes. Há uma falsa noção de que as coisas passam voando. Nós é que apressamos sem precisão, sem o apuro de se alinhar nos sonhos que realmente movem nossos pés. No momento em que delegamos importância a mixarias, o essencial se perde das mãos. Tudo parece rápido, mas no fundo somos nós que aceleramos o compasso. Tornamo-nos vítimas de uma lufada ríspida e célere, lançando-nos sem direção, a lugar nenhum...



Aspas do Autor: Às vezes é bom desacelerar, apurar os olhos para o quadro bonito da vida e perceber o que de fato é essencial para nosso crescimento. Estou me disciplinando a isso.