Laços de Calor

20/06/2020



Fui liquidificado pelo seu toque anestésico, seu olhar cataclísmico que aniquilou os delitos do meu corpo descendente de dores passadas. Transcendi na imensa ternura que centelha de sua pele, armadilha de prazeres inefáveis, hangar delicado para minhas mãos lépidas e desejosas de amor. Faíscas de paixão se expeliram como antídotos para o doloso amortecimento que sua ausência era em mim. Tornei-me peça de encaixe nas tuas curvas, um escravo subjugado pelo seu precioso dom de sedução. Fui efervescido pela sua crepitação vil de doçura, feito refém em uma sauna que liquefez as vestes mais congeladas do coração.

Reagi ao toque, apreendido por correntes imaginárias que atiçavam meu desejo tão nutrido de ti, compondo-me refrão nessa melodia que retumba em teu poético dançar. O amor contorceu-se e enredou nossas delinquências em gestos de entusiasmada paixão; em uma ebulição que validava nossos laços tão unos. Fundi-me nas tuas texturas, pincelando meu corpo com o seu, como cores que se coadunam e elaboram novos tons, tornando-nos em um só. Fui enlaçado pelas tuas mãos lépidas que conseguiram tatear a escuridão do meu peito tão dolorido e solitário.

Elucidaste os segredos tão penetrados em mim, traduzindo e mapeando minhas angústias tão intencionadas a me amarrarem, sendo cura em meio à minha alma tão desabitada de amores. Tu trouxeste a resposta para meus anseios e as asas para meu corpo de anjo corrupto, relegado pelos demônios da solidão. De tanto que te declamei, emudeci. A realeza do nosso mudo amor prevaleceu quaisquer palavras ditas ao vento, e sagrou-se via poemas riscados em peles entrelaçadas, em rimas trepidadas com suor; em um amor certificado por nossos laços de calor – e amor.

Aspas do Autor: Trazendo algo mais intenso e diferente. Vez ou outra, a ousadia toma conta das minhas mãos.

Desprendimento

06/06/2020

Foto: Dan Gold/Unsplash.

É um ano de estranhamentos que tem me atrelado ao chão, com temerosas sensações. Tenho servido meus desejos no afã de solucionar os caminhos, agora tão abarrotados e turvos. Tem sido dias inflexivos, remodelando angústias interiorizadas que ressaem causando derradeiras afetações. Eu gesticulo para me soltar e descolar dessa névoa nos arredores de casa. Esse distanciamento, não apenas físico, tem realçado meus sentimentos e minhas prioridades. 

Há muito que uma tormenta tem desnorteado o meu senso de equilíbrio, meio que me arrastando para o porão das minhas memórias mais contidas. Nos últimos meses uma inquietação tem se formado na minha mente, traindo meu bem-estar e sobrepondo os pensamentos mansos. É um atropelamento que me estaciona, deixando-me padecente de sensações repreensíveis e penosas. Tento acordar no intuito de engavetar as apreensões desdobradas nesses dias tão [in]tensos. 

Hoje o peito devora-me em saudade, alienando o silêncio para as profundezas. Por tanto tempo estive adormecendo minhas memórias para reciclar um pouco de paz. Contudo, hoje exalta a vontade de delirar os versos do que tenho sentido. A solidão diária tem refletido meu coração que se dilatou com tanta poeira aglomerada no íntimo. Permito-me desprender do que tanto tem me acorrentado, afinal, o que busco é uma soltura para o meu introspectivo estado. 

Eu acolho meus olhares, pois percebo que preciso me ater ao essencial, ao que realmente importa. Tem sido dias de faxina, que intencionam raspar as camadas cinzentas dos meus muros antes tão coloridos. Foram dias e mais dias presos a um ciclo onde as palavras amanheciam mudas, acobertadas pela fragilidade do coração de se abrir, tornar livre a poesia que sempre tornou quem sou e o que me encaminhou até hoje. 

Precisou a vida refrear os meus passos para eu encontrar uma joia que tinha se perdido dentro de mim. Achei-a empoeirada, mas ainda com seu vigor; um terno querer que sempre lustrou o brilho dos meus olhos, a vivacidade dos sonhos mais íntegros que perfilavam na minha alma. Foi preciso parar por um instante para observar que aquela paisagem borrada, que eu pensava ver através da janela, era apenas o meu reflexo. Assim como tantos outros, eu vivia acelerado e mal me enxergava.

Hoje eu me desprendo para dar mãos, novamente, à poesia. Para me reencontrar.

Aspas do Autor: Por tantas vezes ensaiei voltar. Mas o coração precisava apenas de um momento para sair da toca. Que sejam dias prósperos e cheios de poesia.