De nós

27/08/2020




Parece que foi ontem que a vida fez nossos caminhos atravessarem, ligando nossos destinos de modo quase teatral. Ainda me é nítida a lembrança daquela conexão meio súbita, da rapidez com que nossos olhos se acostumaram, deram as mãos e caminharam juntos por um período. Lembro-me da cumplicidade que o tempo concebeu a nós, quando anotávamos os nossos sonhos em uma mesma folha de caderno. Aquela nascente que incorporou nossos pensamentos e nos encaixou tão reciprocamente, orquestrou, com o passar dos dias e das conversas tão fáceis, uma canção manuscrita pelos nossos encontros. 

Parecíamos displicentes e alheios ao que nos cercava, pois a aproximação nos deixou tão íntimos que parecíamos um só. Não havia distorções no nosso modo de entrelaçar os sentimentos, tal coesão e naturalidade sucedida naquele amor que ali se elevava. Era uma força quase incompreensível que nos sustentava, tamanha era a sintonia em nossas trocas, em nossas confidências, no nosso modo tão singelo de descobrir um ao outro. O amor nasceu tão imperceptível que um dia apenas nos deparamos apaixonados. Igual ao fruto que nasce de uma árvore. Nunca o testemunhamos frutificar, mas um dia a gente acorda e o vê, belo e agarrado aos galhos. 

Desde então nos tornamos presentes dentro um do outro, tão intrínsecos quanto o ato de respirar; tão inerentes quanto ao desejo de viver. Surgia ali um enlace que transcorria com exímia fluidez, unificando-nos em um entendimento espontâneo e orgânico. Era uma pressa que nos socorria, que nos queria livrar de uma aparente solidão. Realçamos nossas carências e nos abraçamos enquanto estávamos unidos ao que sentíamos. Parecíamos crianças descobrindo um mundo novo, pincelando faces coloridas em texturas antes tão acinzentadas. Tínhamos gestos pueris, mas éramos grandes na maneira de amar. 

Ao estarmos a centímetros um do outro; ao nos olharmos com os rostos colados; ao nos tocarmos; ao nos beijarmos; o mundo pareceu sancionar tudo o que havia nascido entre nós. Houve um enlevo de alegria, uma explosão silenciosa que ressoou lá dentro de nós, onde nossos corações bailaram uníssonos. Nos apreciávamos tão felizes. A memória de sorrirmos quase estáticos e em silêncio, vem límpida e terna. Mas quando nos encontramos, nós nos perdemos. Quando cruzamos a barreira da distância, a vida realçou muros intransponíveis. 

Ainda que os desejos fossem sinceros, e estávamos tão sintonizados, as dobras dos caminhos realçaram nossos limites. Teve um choque que afugentou nossas realidades e trouxe temerosas constatações. Só o amor não foi suficiente para a harmonização, porque é preciso muito mais que isso. E o teor de nossas condições afastaram-nos dos nossos sonhos tão cúmplices. Curvas em alta velocidade podem causar acidentes inesperados. E assim foi. A vida soltou nossas mãos tão rápido quanto uniu. Lembro-me que pareceu uma eternidade enquanto estivemos fitando o mesmo horizonte. Mas agora entendo o que ficou para sempre. 

Falamos tão pouco hoje, mas saiba que estou bem. E fico mais ainda por saber que aí do outro lado você igualmente está. Hoje eu te escrevo tudo isso por gratidão. Não é o momento do fim que guardo com absoluto. Pois nada acaba, apenas se transforma. Me atenho às memórias boas para sorrir ante aos sentimentos que, nesse tempo, engenhou pilares em nossas vidas, criando laços muito mais concretos. Porque a experiência de amar nos marca eternamente. Aprendi que sentir faz a vida fazer sentido. Não há arrependimentos ou desejo de voltar. Hoje eu só celebro a dádiva de um dia ter te conhecido e, muito mais ainda, ter te amado. De nós eu só colhi frutos. A esperança pela felicidade, a crença no amor e a sorte de ter vivido.


Aspas do Autor: Porque eu sei que você está bem aí do outro lado. O afeto será sempre. Abraço meu bem! Obrigado!

Laços de Calor

20/06/2020



Fui liquidificado pelo seu toque anestésico, seu olhar cataclísmico que aniquilou os delitos do meu corpo descendente de dores passadas. Transcendi na imensa ternura que centelha de sua pele, armadilha de prazeres inefáveis, hangar delicado para minhas mãos lépidas e desejosas de amor. Faíscas de paixão se expeliram como antídotos para o doloso amortecimento que sua ausência era em mim. Tornei-me peça de encaixe nas tuas curvas, um escravo subjugado pelo seu precioso dom de sedução. Fui efervescido pela sua crepitação vil de doçura, feito refém em uma sauna que liquefez as vestes mais congeladas do coração.

Reagi ao toque, apreendido por correntes imaginárias que atiçavam meu desejo tão nutrido de ti, compondo-me refrão nessa melodia que retumba em teu poético dançar. O amor contorceu-se e enredou nossas delinquências em gestos de entusiasmada paixão; em uma ebulição que validava nossos laços tão unos. Fundi-me nas tuas texturas, pincelando meu corpo com o seu, como cores que se coadunam e elaboram novos tons, tornando-nos em um só. Fui enlaçado pelas tuas mãos lépidas que conseguiram tatear a escuridão do meu peito tão dolorido e solitário.

Elucidaste os segredos tão penetrados em mim, traduzindo e mapeando minhas angústias tão intencionadas a me amarrarem, sendo cura em meio à minha alma tão desabitada de amores. Tu trouxeste a resposta para meus anseios e as asas para meu corpo de anjo corrupto, relegado pelos demônios da solidão. De tanto que te declamei, emudeci. A realeza do nosso mudo amor prevaleceu quaisquer palavras ditas ao vento, e sagrou-se via poemas riscados em peles entrelaçadas, em rimas trepidadas com suor; em um amor certificado por nossos laços de calor – e amor.

Aspas do Autor: Trazendo algo mais intenso e diferente. Vez ou outra, a ousadia toma conta das minhas mãos.