9 de fevereiro de 2016

O pranto de Colombina













A folia se rejubilava mesmo ante o torrencial ‘choro’ dos céus, deflagrando matizes apoteóticas de um ato que esfuziava corações sedentos de felicidade. As ruelas vestiam uma delicadeza inocente, aura romântica que reverberava nos olhos e aliciava as aflições até dissiparem, feito fumaça. Eram centenas de confetes e serpentinas espalhadas pelas ruas e construções históricas; melodias dóceis e atenuantes ecoando pelos becos, trilhas para os afortunados e apaixonados. Mesmo ante a chuva, o mormaço tingia as ruas, enfeitadas com alegorias de exímia felicidade, de emoções que retumbavam no coração do povo. Um espetáculo que sorvia em debutes indecifráveis, destilando a essência em retalhos singulares de amor...

Próximo a tudo isso, uma peculiar moça perdia-se por entre o véu indiferente da massa mundana, desvencilhando sorrisos com mascaradas expressões. Seus cacheados ruivos, mesmo úmidos e despenteados, cintilavam a majestade de sua beleza, de seu feitio quase imaculado, enternecido por um semblante sedutor. Atraía olhares mesmo dos mais distraídos. Ela resplandecia. Seus olhos azulados amorteciam dores e iluminavam qualquer penumbra. Eram pérolas luzidias que espelhavam a imensidão de sua meiguice; abismos azulados que vertiam a macia textura de um sublime paraíso. No momento, estavam avermelhados por uma seca dor, que se aclimatavam ao seu suntuoso glamour. Seu apelo era decotado com presteza, uma prece rejuvenescida, clamor fundo, desejo deliberado por um amor, tentativa aparentemente vã de encontrar o nobre rapaz que a amava de forma pura...

Em rodopios faceiros, ela dava passos céleres, na tentativa de fugir da neblina, do açoite de sua enclausurada dor, de sua solidão latente e abafada. Em meio à multidão, espreitava e estribilhava sua pureza mesmo sob prantos, contrastando com o público que se exaltava em júbilo... Seu descompasso visível fazia-a se perder na insanidade das cores e vozes ao redor, alastrada por brilhantes decorações e nas melodiosas marchinhas daquela histórica cidade, agora púlpito de mais um vazio e melancólico carnaval. Na contramão da marcha ela corria para achá-lo, para saudar o que unia seus corações em afável sintonia, em uma sonora canção, composta por uma orquestra de anjos graciosos, audível apenas por seus ouvidos. Mas onde ele estava?

Em busca de Pierrot, girava pelas ruas, silente e abatida, em um infarto de formosuras, tremulando sua saia rodada de branco-marfim com o requinte de uma princesa, de tal compostura que lhe era natural. A maquiagem borrada pela chuva e pelas lágrimas, não escondia quão linda era, tampouco seu fascínio pelos matizes que trespassava aos olhos. Solitária, era refém daquela arquitetura sinuosa e barroca, que reverenciava sua exuberância; calçadões e ladeiras que a viam, entre bandeirolas, desfilar sua ímpar jovialidade de apaixonar. Os trovões anunciavam a sua polidez, seu compasso lírico e doce, porém meio desatinado. Sua lucidez era quase lúdica, retrato de um sonho relegado. A folia não lhe era mais a preciosidade de antes. 

Foi quando em um rodopio, tropeçou e estatelou no chão, recaindo na dura e cruel realidade. Sofria. Por um momento queria amá-lo. Mas os céus eclodiam em desarranjo, em consonância com sua angústia. Então, ela gritou, gritou e gritou, tão alto, que ecoou através dos confins do universo, e mesmo as estrelas mais longínquas ouviram seu agudo desespero... A moça desmaiara, mas logo foi salva pelo garboso homem vestido com a fantasia de losangos coloridos estampados, seu fiel amante, sua mais leal companhia. 

Pouco tempo depois, as nuvens dissiparam e a chuva cessou. A noite deu lugar às luzes de um bonito e reluzente sol. A folia adormecera incorporando-se a ruas vazias e uma mórbida mudez. A alguns metros do lugar onde a moça caíra, pétalas de uma rosa vermelha, espalhadas pelo descuido da vida, e agora irradiadas pelo brilho de um novo dia, pareciam renascer... Uma flor se reconstruía. A rosa vermelha de um amor, a flor de Pierrot...


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Vejam os outros carnavais:


Aspas do Autor: Voltar a escrever aqui e voltar com esta série inspirada no conto de Pierrot e Colombina é melhor ainda. É o quinto capítulo, e dessa vez Pierrot não o protagoniza e, sim, sua amada. Quem quiser conferir os anteriores, os links estão acima. No mais, estou de volta! 

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