20 de março de 2017

O triste fim da pipa

Foto: Nikos Douvlis Manipulação: Alexandre Lucio Fernandes


O vento desorienta as ruelas, um surrupio esbaforido que acalenta as curvas solitárias entre prédios imersos na clausura. Olhos fugidios espreitam, pelas janelas, o dissabor de um dia se rompendo; mãos ansiosas se escoram por sacadas, sedentas por um desavisado aperto do mundo. O sol, escondendo-se, deixa escapulir seus últimos raios por entre as casas e as árvores, e a poeira esfacelando pelo ar deixa-se visível, criando uma atmosfera bucólica. Na principal avenida, veículos se digladiam, buzinas fervorosas, pés apressados em acelerar, que violam o soturno silêncio que se envolvia no ambiente. Poucos notam aquela graciosa pipa dançando no ar.

O véu sombrio do crepúsculo vai alaranjando as ruas que num instante, são tomadas por pessoas de olhares vagos e distantes. É a noite, próxima, convidando-se a entrar, libertando vagarosamente seu manto de escuridão. Neste momento, a mãe com o filho no colo corre ligeira atrás de ônibus lotado. E o senhor de bengala anda sobre as esburacadas calçadas, atento para não cair. O mundo em movimento não atrapalha o prazer daquele casal no sexto andar do prédio, que somado a carícias e beijos, faz um amor belo, puro e pulsante. O medo parece se dissipar pelas feições vazias dos transeuntes. E a pipa, a tremular, cambaleia seus dotes por um céu que vai enegrecendo segundo a segundo. Mas ninguém a vê.

Ouve-se o ranger da porta de metal do mercadinho do seu José, que se despede de um dia em que o trabalho foi seu melhor companheiro. Na outra esquina, o bar do Manoel abre as portas para clientes ávidos por uma sinuca e uma cervejinha gelada. O calor desanuvia ante as fagulhas finais de um longo dia, e o vento desabrocha, trazendo frescor a poucas flores que, vigorosamente, nasceram pelos becos. Até o sorriso da moça bonita da rua de trás causa sossego a olhares desejosos. O fim do expediente do açougue é alegria do cachorro que, incessantemente, e em vão, balança seu rabo para tentar ganhar um pedaço de carne do açougueiro. E a pipa, sem ninguém a notar, continuava sua rasante, em uma presença bela e fugaz.

O céu começa a dar lugares para estrelas cativantes e cheias de brilho. Televisões iluminam-se entre as salas das casas, ressoando o som do telejornal das sete frente a olhos vibrados. Na pracinha, alguns viram o rosto para o assovio do adolescente para a bonita mulher do médico da rua das laranjeiras, que caminhava para casa. E a pipa, ondeando sob as pessoas, passa despercebida, voando por entre os prédios, adentrando os becos em plena penumbra. Ela perambula, sorrateira pelo ar, elegantemente, de modo quase teatral. Até que inesperadamente solta-se, deixa-se levar pelo vento, completamente entregue. Em seu voo cego, engata em fios de eletricidade, próximo ao transformador do poste, causando um perigoso curto. O barulho das fagulhas atrai a vista de curiosos, que veem a pipa agonizando nos fios.

No beco, gritos são abafados por mãos grandes e suadas. A doce menina que há pouco brincava, era violentada, enquanto todos estavam atentos ao triste fim da sua pipa.



Aspas do Autor: Às vezes o cotidiano esconde muito mais terror do que aquilo que somos capazes de ver... Parece que somos atraídos demais por coisas irrelevantes, quando há coisas mais essenciais que merecem a nossa atenção. A violência sexual contra crianças, infelizmente, ainda é muito presente por essas ruas do Brasil, e pouco se faz. Muitos só conseguem enxergar a pipa enroscada no fio causando curto... Este texto é apenas um conto, mas tristemente inspirada pela cruel realidade...

31 de dezembro de 2016

Despedidas














Chega aquele dia em que você abre os olhos e se sente noutro mundo. O dia irrompe com um aspecto incomum, pouco familiar, suprimindo aquele bem-estar tão característico das manhãs. Nem o cheiro da rotina é capaz de despertar o frescor das memórias, aquela intimidade estabelecida com o que lhe cerca. Diante do espelho, você mal se conhece. A imagem é meio embaraçada. A procura por respostas é irrefletida, demasiadamente vã. Não há um impulso frenético, uma intuição cutucando os cantos da alma. Não há nada, de fato.

Essa imersão insere você em um estado quase mudo, em uma maestria furtiva que acalenta a alma. Ante o desconhecimento, o silêncio faz-se mãe de todas as ações, superfície que apazigua brandamente esta aflição. É um estado erradio, em que o corpo nem sempre responde direito aos sinais externos, como em um ato de fuga, em que tudo responde apenas ao ato desesperador de correr. O momento, ao se prolongar, evidencia a apatia pela qual se vira refém. A vida transfigura e estranha-se inicialmente este “virar de página”.

O mundo se apresenta como se fosse a primeira vez, igual dia em que você abriu os olhos, logo ao nascer. Você é reapresentado a este ciclo que gira interminavelmente, período após período. O corpo sente a transição, e fica deslocado, simplesmente perdido. A mudança de um dia para o outro é abrupta, e o coloca vítima de uma inesperada despedida. É tudo muito fugaz. Em um sopro você se aparta das texturas de ontem. Mal tem tempo para se desligar das nuances de outrora, da simetria enternecida das memórias, que davam formas à vida.

Viver é repleto dessas despedidas, desses giros que estacionam e impulsionam, logo em seguida, a alma a voar. A semente é regada todos os dias. Quedas e experiências moldam a alma, o corpo – a mente. As vivências tornam-se professoras de diversos aprendizados. Você absorve e aprimora; e quando menos se espera, floresce e frutifica. Todo dia você se despede de partes que já te representaram, para dar lugar a um novo ser humano. Mudar é sempre entrar em um estado de êxtase, em um novo cômodo jamais visto antes; um espetáculo solitário, apreciado por ninguém além de você mesmo.

Crescer é ganhar nova forma. Amadurecer e mudar são eventos pelas quais inevitavelmente todos estão sujeitos a vivenciar. Fazer novas escolhas, seguir e definir novos rumos e prioridades são sinais de que a sua alma está se despedindo de resoluções velhas. Você se sente em outro mundo, pois está adentrando em uma nova caminhada, rodeada de novas paragens. É necessário sempre estar pronto para despedidas, dar lugar a novas páginas, a novas paisagens e olhares. O mundo segue sem esperar. E cabe apenas persegui-lo, agarrando as oportunidades de crescimento que surgem diariamente, deixando para trás os dias velhos e dando boas-vindas aos novos dias, que estão de braços abertos para você.



Aspas do Autor: É assim que eu quero me sentir em 2017, adentrando novas paragens, deixando para trás velharias e dando espaço para viver novas experiências e conquistas. Uma nova fase. Assim espero. Feliz 2017 a todos.