24 de julho de 2016

Regaço

Foto: Sanya Khomenko













Seu abraço
é meu regaço,
onde descompasso
meus braços

corpos
num só entrelaço,
juntos,
num só compasso

toques de
um amor crasso,
em ti, eu me
transpasso



Aspas do Autor: Do abraço, uma cura, um porto seguro para o amor.

17 de julho de 2016

Olhos de amêndoas

Foto: tieumagame













Eram olhares fundos e reluzentes, de um translúcido que refletia orações de amor, clamores por noites apoteóticas e curativas. Eram oceanos amendoados, castanhos singulares que extinguiam lamentos e dores em piscadelas esperançosas por um súbito abraço de compreensão, ou mesmo um olhar que mergulhasse fundo no seu. Seu grito silenciava pelo olhar, sua essência se transbordava pelos gestos mudos de sobrancelhas delicadas que conferiam expressão ao seu belo par de olhos.

Sua expressão evidenciava um pouco de melancolia, uma mesclada sensação de tristeza com uma vaga – quase nula – chama de esperança. Seu olhar refletia um passado que a machucara, que marcara seus caminhos com passos fundos de dissabor. Ainda que houvesse um brilho a cingir sua fé no amor, ela circundava os arredores das mágoas como quem já estava cansada demais para amar. Seus olhos amendoados, ecoavam a amargura de partidas inenarráveis, de colisões furtivas e raptos cruéis da sua preciosa alma.

Seu olhar fragilizado revelava uma tenra dor ocasionada pelos corruptos que violaram, sem cuidado, os afluentes do seu raro sentimento. Ela cedeu seu universo a poucos que, cruelmente, navegaram tão somente na superfície de sua existência; corruptos sedutores que apenas extraíram seus recursos mais humanos, mais femininos, seus sonhos mais ternos. Vândalos que ‘pescaram’ as joias em suas ostras mais profundas, no recanto mais belo e fundo do oceano da sua castanha alma. Seus olhos fundos, eram reflexos da dor que os poluía com desesperança, de tão machucada que foi.

Eram olhares, acima de tudo, puros e resolutos, mas que ondulavam uma pujante sensibilidade, resguardado pelo seu controverso jeito de crer no amanhã. Pareciam descrentes, contudo, raios cintilavam, forçando fissuras em sua textura amargurada. Ela mal intuía, todavia, seus olhos ainda coreografavam – timidamente – pedidos de amor, o verdadeiro, o real, aquele que enfim, mergulhasse fidedignamente em seu oceano tão refletivo e apaixonado. 

Porém, eram olhos livres e independentes, felizes e inteiros em cada piscar, em cada suspiro. Ela era pássaro que voava sutil e de braços abertos ao destino, soprada pelo vento de boas-venturanças, sustentada por algo que jamais seria abalado por alguém. Em meio ao seu voo despretensioso, refletia seus olhos amendoados por um mundo carente de afeto, sem ter clareza do que pedia, mas certa de estar completa. Se por ventura, outros olhos imergissem no dela, transbordando-a com amor, seria muito bem-vindo. Seria mais que lindo. Seria um alívio.


Aspas do Autor: Quantos olhos amendoados ainda existem por aí? Minha é a esperança de encontrar um par para eu imergir... Pois belo seria! E como.