14 de julho de 2017

Errante

Foto: Davor.
















Sou poesia sem sabê-la
poeta, diz que sou
mas nem me atrevo a ser
pois só sinto [a fala]
por desconhecê-la

entretanto,
humano sou tanto
por buscá-la
e corajosamente
escrevê-la

[mesmo sem saber
defini-la]

Poesia? O que seria?
sou só uma alma fugidia
que nas letras
se alivia

[e por muito tempo
se escondia]


Aspas do Autor: Sou só um corajoso que se arrisca a pegar carona na dimensão das entrelinhas. Sigo apenas o sopro do vento, feito um passageiro nas entrelinhas...

20 de março de 2017

O triste fim da pipa

Foto: Nikos Douvlis Manipulação: Alexandre Lucio Fernandes


O vento desorienta as ruelas, um surrupio esbaforido que acalenta as curvas solitárias entre prédios imersos na clausura. Olhos fugidios espreitam, pelas janelas, o dissabor de um dia se rompendo; mãos ansiosas se escoram por sacadas, sedentas por um desavisado aperto do mundo. O sol, escondendo-se, deixa escapulir seus últimos raios por entre as casas e as árvores, e a poeira esfacelando pelo ar deixa-se visível, criando uma atmosfera bucólica. Na principal avenida, veículos se digladiam, buzinas fervorosas, pés apressados em acelerar, que violam o soturno silêncio que se envolvia no ambiente. Poucos notam aquela graciosa pipa dançando no ar.

O véu sombrio do crepúsculo vai alaranjando as ruas que num instante, são tomadas por pessoas de olhares vagos e distantes. É a noite, próxima, convidando-se a entrar, libertando vagarosamente seu manto de escuridão. Neste momento, a mãe com o filho no colo corre ligeira atrás de ônibus lotado. E o senhor de bengala anda sobre as esburacadas calçadas, atento para não cair. O mundo em movimento não atrapalha o prazer daquele casal no sexto andar do prédio, que somado a carícias e beijos, faz um amor belo, puro e pulsante. O medo parece se dissipar pelas feições vazias dos transeuntes. E a pipa, a tremular, cambaleia seus dotes por um céu que vai enegrecendo segundo a segundo. Mas ninguém a vê.

Ouve-se o ranger da porta de metal do mercadinho do seu José, que se despede de um dia em que o trabalho foi seu melhor companheiro. Na outra esquina, o bar do Manoel abre as portas para clientes ávidos por uma sinuca e uma cervejinha gelada. O calor desanuvia ante as fagulhas finais de um longo dia, e o vento desabrocha, trazendo frescor a poucas flores que, vigorosamente, nasceram pelos becos. Até o sorriso da moça bonita da rua de trás causa sossego a olhares desejosos. O fim do expediente do açougue é alegria do cachorro que, incessantemente, e em vão, balança seu rabo para tentar ganhar um pedaço de carne do açougueiro. E a pipa, sem ninguém a notar, continuava sua rasante, em uma presença bela e fugaz.

O céu começa a dar lugares para estrelas cativantes e cheias de brilho. Televisões iluminam-se entre as salas das casas, ressoando o som do telejornal das sete frente a olhos vibrados. Na pracinha, alguns viram o rosto para o assovio do adolescente para a bonita mulher do médico da rua das laranjeiras, que caminhava para casa. E a pipa, ondeando sob as pessoas, passa despercebida, voando por entre os prédios, adentrando os becos em plena penumbra. Ela perambula, sorrateira pelo ar, elegantemente, de modo quase teatral. Até que inesperadamente solta-se, deixa-se levar pelo vento, completamente entregue. Em seu voo cego, engata em fios de eletricidade, próximo ao transformador do poste, causando um perigoso curto. O barulho das fagulhas atrai a vista de curiosos, que veem a pipa agonizando nos fios.

No beco, gritos são abafados por mãos grandes e suadas. A doce menina que há pouco brincava, era violentada, enquanto todos estavam atentos ao triste fim da sua pipa.



Aspas do Autor: Às vezes o cotidiano esconde muito mais terror do que aquilo que somos capazes de ver... Parece que somos atraídos demais por coisas irrelevantes, quando há coisas mais essenciais que merecem a nossa atenção. A violência sexual contra crianças, infelizmente, ainda é muito presente por essas ruas do Brasil, e pouco se faz. Muitos só conseguem enxergar a pipa enroscada no fio causando curto... Este texto é apenas um conto, mas tristemente inspirada pela cruel realidade...