Morbidez

01/11/2014

Foto: Mayandra



Seu olhar pendia para os lados sem direção. A pele tremia em efeito ao demasiado frio que invadia a casa através da janela aberta. Ela não tinha forças para recompor e restituir a consciência, abandonada há pouco. Mal se mantinha acordada. Os dentes batiam em uma sincronia desafinada e assustadora com o coração. Estava sedada pelo impacto, por um incinerado pudor indefinível, um espasmo mental aniquilador causado pelo desmembramento de suas energias.

Deitada em pleno chão gelado, ela reclinava a alma em um descanso mórbido, quase funerário. Não sentia seu pulso, as latentes batidas do seu coração. A tensão tinha lhe tirado a sensibilidade, partido o centro nervoso de suas percepções. Seu peito padecia em uma morna sensação, uma torpe inoperância que a deixava à margem de tudo ao redor. O colo ardia [em] desespero, fustigando a alma com um terror psicológico, nada sadio. Ela não fugia do inevitável. O mundo parecia ter parado.

Seu jeito amortecido situava-se paralelo ao mundo, porque os elementos pareciam se distanciar dela. A mente desfocava a nitidez do ambiente, feito uma escuridão que nascia dentro dos olhos. Sua pele enegrecia ante a fraqueza desmedida que fluía pelas veias do corpo. Suava e tremia com um corpo se retorcendo em meio a curtos gemidos de dor. A palidez tomava conta de seu semblante inchado. E nada era capaz de conter aqueles segundos apavorantes. Até que findou, igual um espetáculo que fechava as cortinas.

Em poucos segundos seu corpo enrijeceu, endureceu feito rocha. Mas o espírito, quebrantado, inebriado pelo cheiro mórbido da morte, fez com que o findar da consciência se alongasse, feito câmera lenta, em efeito a uma anestesiada embriaguez de dor misturada com prazer. Segundos pareceram horas. Segundos que tornaram sua morte uma passagem silente e vagarosamente horripilante. Uma tortura que a consciência causou, sem escrúpulos, em seu corpo padecido.

Ao findar da melancólica melodia, suas mãos tombaram a seringa que provocara sua overdose. Para ela a vida era uma droga. Drogou-se tanto até perdê-la...



Aspas do Autor: Às vezes as pessoas buscam um prazer ilusório para fugir da realidade. A fuga acaba sendo, em muitas ocasiões, definitiva...

23 comentários:

Vitor Costa disse...

Ao fim da leitura, permaneci sentado na minha cadeira sem uma reação imediata Alexandre! São esses aqueles textos que nos fazem dar aquele nó na garganta, aquele desamparo, desperta-nos uma chuva de pensamentos que se anulam e resultam em um vazio, um impacto imensurável. Senti-me de forma similar a ocasião em que vi o final do filme Requiem para um Sonho, se não viu ainda Alexandre, recomendo veementemente.

Você é um exímio descritor de sentimentos e sensações, e o momento da morte ganhou nuances etéreas pelas suas mãos. Soturno e brilhante.

Abraços.

Alexandre Lucio Fernandes disse...

Vitor, gosto de explorar as sensações, sobretudo as abstratas e as tão adversas. Mas nem sempre é fácil. Tentar descrever sentimentos imensuráveis é um exercício muito difícil e de muita profundidade, exige imaginação fértil rs. Em relação à essa questão, sou atacado por reflexões. E ao escrever passou-me muita dor...

Enfim, obrigado pelo gentil comentário.
Abraços!

Mari Mari disse...

Cara, eu sinto bastante isso pra dormir. Essa dormência que você descreveu no texto. Não é que eu tenha medo de morrer dormindo ou nada do tipo, mas quando relaxo pra dormir, e sinto aquela sensação de estar bem perto do sono, é como se meu corpo tivesse parando de funcionar, como se eu fosse morrer ou sei lá o que. Ás vezes desperto na maior agonia. rsrs
E aí imagina qual não foi a minha cara de pavor ao ver que a personagem estava de fato morrendo. Vc devia ter visto.
Texto sensa, cara!

ps: Não vou te dar um abraço real, então vai um virtual msm \o/ adorei seu comentário lá no blog. Vc parece ser um cara sensível a certas coisas. Deve ser coisa de artista mesmo. Vc é do tipo que repara, ou sabe ligar os pontos. Bem, vc ligou bem os pontos lá no blog. Obrigada. <3

Bandys disse...

Olá Ale,

Ahh que triste. Tinha uma amigo que se drogava e uma vez errou na dose
e acabou a vida. Tão novo, tão bonito.
Para muitos a vida é uma droga. Mas também não fazem nada
para ser florida e perfumada. se negam a qualquer tratamento, não
conseguem ficar abstêmio e não querem se conhecer. geralmente matam a pessoa errada.
Uma ótima semana, fica com deus.
beijos

Alexandre Lucio Fernandes disse...

Mari, eu também fiquei com essa cara de pavor. Pode parecer meio maluco, mas eu tenho uma técnica, para alguns contos, de escrever sem saber do fim. Começo sem pretensão e a ideia vai se moldando. Para se ter ideia, eu comecei pensando noutra coisa. Quando esse fim me veio a mente, veio do nada e se encaixou. Eu empalideci. rs Mas continuei. Loucura né? rs

ps: Mari, sou sensível sim e respeito demais as pessoas e dou valor ao que elas são. Você é uma pessoa com personalidade muito destoante, diferente, com essa instabilidade e tudo. Mas Mari, mesmo se tu fosse o contrário do que é, [o que não imagino rs] eu ainda teria o mesmo carinho, porque tento reparar o que existe dentro de você. Eu ligo os pontos rsrs e e vejo coisas boas. Mesmo que eu não curta algumas coisas ou pense ao contrário de ti, tu nunca vai me ver reclamando para tu mudar. Você é uma pessoa bacana, do jeito que é e pronto. Fica bem. Beijo! ;)

Alexandre Lucio Fernandes disse...

Meu anjo, é verdade, algumas pessoas não tem noção. Essa é uma das fugas pela qual nunca seguirei...

Beijo <3

A.C. disse...

Muito boa! Até metade do texto eu ainda estava procurando nexo, mas ao final...tudo fez sentido!
Muito bem escrito Alexandre, mais pessoas deveriam ler texto assim, principalmente adolescentes e se conscientizarem que não há vicio que nos faça fugir dos problemas sem nos colocar em um abismo.

Identidade Aleatória

Mari Mari disse...

Nossa, que louco. Normalmente eu já tenho uma boa ideia do que vai ser quando começo a escrever. Ás vezes a ideia muda, mas nunca começo sem fazer ideia do fim.
Mt obrigada cara, msm. Vc é um amor por tudo que disse.

ps: Te indiquei a uma tag lá no blog! Não sei se vc responde essas coisas, mas indiquei. rsrs

B. disse...

Essa última frase foi avassaladora hein Alexandre? Eu gosto tanto de textos sombrios, desse tom, das palavras, mas só de pensar em tamanha dor, causa-me angústia.
É sempre bom vir por aqui, me surpreendo com os seus escritos a cada dia que passa.

Gabriela Freitas disse...

Tenho amigos que usam, morro de medo de perde-los. A droga é o pior veneno.

No começo do texto interpretei em vários sentidos hahaha mas adorei o final

http://www.novaperspectiva.com/

Desa disse...

Bela descrição!
Adorei o fato de não saber bem o que estava acontecendo, apesar de eu já ter uma idéia em mente, a foto é bem sugestiva rs
Tenho tendências a gostar de coisas melancólicas, mas nesse caso é algo mais sério, é algo real e que acontece com mais frequência do que podemos imaginar. Certas pessoas se encontram tão perdidas dentro de si mesmas que são capazes de fazer qualquer coisa.
Sim, é triste!
Um abraço!

Carol Russo S disse...

Alexandre eu gosto muito da forma com que você escreve, acho que você explana sensações de uma forma completamente inusitada, e a sua peculiaridade com essas "aspas do autor" trazem um caráter tão específico e tão teu pro texto que não adianta, sempre me deixo levar pela sua opinião e me sinto livres de más interpretações - e eu gosto disso!
Esse foi um dos melhores textos que já li aqui, consegui criar uma imagem tão nítida em minha mente e me identificar de forma grandiosa. E como disse a Andressa "no final tudo fez sentido", hahaha.

Ótima semana, parabéns.

Bird disse...

deve ser a primeira vez que me deparo com um conto por aqui. gostei dele. • enquanto lia fui traçando algumas teorias: 1. era uma pessoa morrendo; 2. alguém muito triste, que se deixara abater de tal forma que isso estava lhe tirando a vida; 3. algumas drogas dão essa sensação inebriante de que se está morrendo. não sei que prazer isso proporciona, mas algumas pessoas gostam. minha teoria 3 estava certa afinal. ♡ @ emilie

Manu Lima disse...

Oi, depois de meses ausente, estou de volta!

Achei o texto um pouco sombrio, mas o toque de realidade foi bastante interessante, por se tratar de algo que muitas pessoas viveram.

Beijos

Alexandre Lucio Fernandes disse...

Obrigado pelo comentário Andressa. De fato, se isso conscientizasse algumas pessoas eu já ficaria feliz. Essa realidade é triste...

Aline Goulart disse...

Depois de um longo tempo, estou de volta! O texto apesar de forte, tem uma realidade que não podemos deixar de observar. Muitas pessoas se deixam dominar pela melancolia e acabam esquecendo das coisas essenciais da vida. Esquecem da transitoriedade das coisas, deixam a dor ser eterna. Buscam a cura através da fuga. E fugir não é resolver. Beijinhos.

Alexandre Lucio Fernandes disse...

Foi né B? Esse texto me surpreendeu também. De vez em quando abuso de tons sombrios e realistas. Pena que tristes. Enfim, obrigado pelo carinho. Beijo!

Alexandre Lucio Fernandes disse...

Pois é Gabi, a droga é o pior veneno. Eu nunca vou entender como caem nessa armadilha. Mas tem gente que cai. Pena.

Beijo!

Alexandre Lucio Fernandes disse...

Essa perdição é algo extremamente lamentável Desa. A morte só é uma oficialização, porque viver, nesse estágio não é mais vida. Dependência em si já é morte.

Alexandre Lucio Fernandes disse...

Carol, obrigado pelo carinho. Eu sempre busco me aprofundar nas sensações. Me afeta um pouco entrar nesses temas, mas de vez em quando gosto de entrar no delicado, na melancólica realidade tão existente para algumas pessoas. Fico feliz que tenha gostado do texto e do "aspas do autor". Ele sempre é um complemento mais pessoal. Obrigado. Beijo querida!

Alexandre Lucio Fernandes disse...

Na verdade Emilie, não é o primeiro conto. Desde a criação deste blog, há 7 anos, eu escrevo contos. Eles fazem parte de uma Tag aqui a "Sonho & Prosa". Pode clicar no link na lateria, que ele mostrará todos os contos ao longo desses anos.

Em relação ao conto, é um tema meio nebuloso, mas pertinente sempre, porque é uma realidade que persiste na nossa sociedade. Pena que muitos morrem por conta disso. Obrigado pelo comentário.

Beijo!

Alexandre Lucio Fernandes disse...

Pois é Manu, minha intenção é sempre abordar casos da realidade. No geral temas sombrios assim são raros, mas sempre volto com eles em algum momento. Beijo!

Alexandre Lucio Fernandes disse...

A realidade é forte. Infelizmente é uma fuga pela qual muitos seguem. E dá nisso. Lamentável. Beijo! :)