13 de abril de 2013

Vestígios...




Ao abrir a gaveta da minha escrivaninha encontrei aquele colar contendo um pingente com a inicial do seu nome. Me deste naquele nosso encontro no terraço do seu prédio. Lembra-se do pôr do sol? Do vento morno que acariciava nosso abraço? Uma das coisas mais bonitas que ganhei de ti em um dos momentos mais felizes da minha vida. E agora estava ali, tamanho tesouro, misturado aos papéis sem relevância espalhados pela gaveta. Perdoe-me. Eu errei em querer escondê-la, em tentar ludibriar os olhos do meu coração. Perambulei absorto sem querer raciocinar. Abrir a gaveta me permitiu acender novamente o coração. O suficiente pra te ver bela e radiante. Ainda.

Acordei ainda sonolenta, com a cabeça pesando quilos e ao esticar o braço derrubei sem querer a caixinha de música: aquela que você ganhou no “tiro ao alvo” na última vez em que o circo esteve em nossa cidade. Ouvir “Für Elise”, de Beethoven, me transportava até você. Eu podia sentir os teus dedos gelados sobre as minhas mãos, tua respiração quente sobre o meu ombro, o cheiro doce de madeira que vinha do seu corpo... Doía-me saber que nós nos resumimos a lembranças e objetos inanimados. Segurei a lágrima e respirei fundo. Eu não posso chorar, não devo e não vou.

Seu perfume ainda impregnava o colar. Ao acariciá-lo com a mão, senti desnudar-me com a inflamada lembrança da sua pele macia e cheirosa. Suspirei. Você rimava em meu coração feito poesia de Vinícius. Cambaleei inebriado no quarto enquanto você me penetrava à distância. Por um momento senti falta do teu calor, da tua presença febril que aninhava meu olhar e causava frisson em meu sorriso. Transportei-me até o gosto doce do teu beijo, aquele devagarinho e cheio de mordidas leves. Senti que já não raciocinava direito. Percebi-me incapaz de te encobrir do coração. Fui tolo demais. Teus vestígios eram fortes e intensos. Lágrimas nasceram... Não tive forças pra segurá-las... 

Eu não tinha domínio sobre mim e as lágrimas, involuntárias, traíam-me descaradamente. Sentia-me, apesar de tudo, feliz por estar sozinha naquele quarto. Por não ter de dar explicações a ninguém e sentir os olhos piedosos de quem quer que fosse sobre mim. Os meus olhos chorosos assemelhavam-se as cascatas que outrora visitamos e, até isso, me fazia chorar. Desaguei. Não compreendia como todo o universo conspirava a nosso desfavor e não entendia como tudo ao meu redor me conectava a você. Guardei a caixinha de música e tentava preservar ali dentro o meu coração, ou que sobrara dele, numa tentativa quase que vã de mascarar o que realmente sentia por você e a falta evidente que você causava aos meus dias. 

Tentei me recuperar e espairecer. Fui até a biblioteca ler um livro para ocupar a cabeça. Mal conseguia intercalar os pensamentos. Peguei o primeiro por impulso. Por obra do destino foi “O Caminho pra distância” de Vinícius. Um dos que mais gosto. Mas a minha surpresa maior foi quando encontrei, dentro dele, um pedaço de papel com a sua letra. Tive um sobressalto. Meu coração acelerou. Não sabia dele. Li com emoção... Havia trechos de uma música muito especial, da sua banda favorita: You don't understand me, my baby, You don't see to know that I need you so much. You don't understand me, my feelings. Senti você ali sussurrando no meu ouvido aquelas letras tão significativas. O coração se rendeu de vez... Talvez agora eu seja capaz de te entender...

Enxuguei os meus olhos e ao olhar para o espelho pude perceber o leve inchaço que havia recebido de brinde. Não podia ser tão fraca, eu não queria ser. Olhando para a cabeceira vi aquele cd do Roxette que você me deu no nosso primeiro natal juntos, coloquei-o no pc e procurei minha faixa preferida: “You don't understand me”. Queria poder dizer a você que ouvisse aquela música, que soubesse que realmente é o único, que estou aqui caso queira me encontrar, que eu aceito as suas desculpas e posso confiar que as coisas serão diferentes, que você mudou e que nossa história será bonita. Porque assim como a canção diz, quando minha boca encontra a sua já não tenho certeza de onde começo e termino. Só queria que tudo fizesse sentido, que você viesse, que mostrasse e me ajudasse a vencer o meu orgulho. Mas você não me entende, meu bem. Não entende.



Aspas do Autor: Esse texto inaugura um novo ''elo'' aqui no blog, o ''Mãos e Olhares" - uma novidade para esse ano - onde publicarei textos em parceria com alguém. Será um elo de almas e pensamentos, uma troca de olhares na escrita. Poderá ser um conto, um poema ou mesmo uma crônica, sempre seguindo o propósito desse blog de passar mensagens e escrever sentimentos da maneira mais verdadeira. Pra começar de forma brilhante, publico este conto em parceria com a linda e talentosa Mel Marques, do blog Pedaços. Espero que gostem. Quem tiver interesse em escrever um texto comigo é só falar. Abraços à todos.

11 comentários:

  1. Poxa que lindo. É tão triste quando algo que era tão importante acaba e a gente olha para trás e é estranho pensar que agora aquilo tudo são apenas lembranças; Vocês dois escrevem muito bem e eu adorei essa ideia de texto em conjunto
    Beijos
    barradosno-baile.blogspot.com

    ResponderExcluir
  2. Uma bela iniciativa teclar a quatro mãos, principalmente quando os autores conseguem alcançar a alma da gente.

    Começos e fins encontros corriqueiros em nossas vidas...mas aqui teve outro sabor.

    Abraços aos dois.

    ResponderExcluir
  3. Nossa! Que lindo esse texto.
    Intensidade, amor, saudade...
    Belo....

    Beijinho

    ResponderExcluir
  4. Uma parceria de sucesso, sem dúvida. Perdi o fôlego!

    Beijinhos!

    ResponderExcluir
  5. Também adorei a parceria! e o tema... sensacional né? falar sobre a mudança. A saudade. tudo de bom!
    bjo

    ResponderExcluir
  6. Essas recordações são as mais lindas!!!

    ResponderExcluir
  7. Que lindo! Esse foi um dos contos mais belos e sublimes que já li. O amor quando é verdadeiro sempre fica uma lembrança espalhada por todos os lugares, e mesmo se não houvessem os objetos para fazer-nos lembrar, mesmo assim, o coração não deixa esquecer.

    Beijos. Obrigada pelo carinho de sempre.

    ResponderExcluir
  8. Olá, eu adorei seu blog e resolvi indica-lo lá no meu :)
    Espero que goste
    Beijos
    http://barradosno-baile.blogspot.com.br/2013/04/tag-e-parcerias.html

    ResponderExcluir
  9. Se não me engano, já li esse texto, lá no "Pedaços" mesmo.
    E achei que a parceria deu certo. Há muita sensibilidade em vocês dois.
    Abraços.

    ResponderExcluir
  10. Bela parceria Alê, ficou muito intenso o conto e lindo!
    Adorei!

    Beijos

    ResponderExcluir
  11. Olá me chamo Henrique Albuquerque editor chefe do Garotos Modernos. Um blog referente a moda masculina no Brasil e no mundo. Estamos convidando a todos para visitar o nosso novo espaço. você esta sendo convidada(o)

    ResponderExcluir

O compartilhar de emoções nos ensina bastante coisa. As palavras, aquelas extraídas do coração são regalos plenos de um real sentimento. E isto encanta. A forma verdadeira de se entregar nas ideias e a intensa maneira de expressar o sentir lá de dentro, é uma arte de profunda beleza. Desperte o seu sentimento aqui, e não hesite em demonstrar o que pensas, o que achas, o que sentes e o que amas. Sinta a leitura e me encontre nas palavras. Opine e eu te encontrarei. Esta troca é o que nos ajuda a conhecermos e aprender melhor, sobre a vida, sobre o ser humano e sobre as diferenças. Eu serei profundamente grato. Obrigado!