Ainda é cedo

21/08/2022

Foto: Cristian Palmer


Ainda me falta o ar, essa miúda resistência frente ao empuxo que a vida tem desferido. Tenho sobrevivido sob os escombros de sonhos antigos, quase esquecidos por essa poeira que se acumulou nesses dias tão íngremes e densos. Respiro, ainda que com dificuldade, as nuances que construí; os apelos que já gritei; os abraços suprimidos e desejados. Ainda é cedo para desistir, mas tenho tido, a cada dia, menos força para me jogar adiante.

Existe uma frequência que ajusta meus pensamentos, que endireita as passadas do meu corpo quase inerte, cansado e tão consternado. Há um luto que me enfileira em carregadas reflexões, na busca por vislumbres de esperança, de um acreditar que me reerga dessa sonolência. Ainda existe uma luz. E ainda é cedo para me entregar e virar refém do acaso, das transições imprevisíveis da vida; dessas curvas que traem a tola direção dos meus pés.

Ainda que me pese as inoportunas penumbras, e os choques pesados que levo no meu peito, esforço-me para decifrar as imagens que se formam na minha mente, desconexas e confusas. Nada parece se conversar quando eu desestruturo frente à um diálogo incompreensivo, em que tento pescar significados e razões. Dilato meus olhos para distinguir, em meio ao breu, a silhueta de um mundo feroz, que ora me prende, ora me solta. Ainda é cedo para tentar entender, mas nunca é tarde para me salvar.

Eu compro o que a vida me entrega, com a temperança de quem precisa serenidade e otimismo para não debruçar sobre as escolhas fáceis. Delibero meus estilhaços, sempre na firmeza de poder me recompor para persistir. Estou a um sopro de ficar entregue, mas a um passo de me encontrar. Eu me agarro em uma força que vai muito além de mim. Estou a metros do meu limite, mas o mundo me sussurra que ainda é cedo para abandonar a luta.

Aspas do Autor: É a única coisa que eu ouço de dentro de mim, todos os dias: ainda é cedo para desistir. É por isso que ainda estou por aqui.

2 comentários:

Wendel Valadares disse...

"[...] E eu me agarrava a ela
Que eu não tinha mais ninguém
E eu dizia: ainda é cedo..."

Meu irmão, como eu gosto de te ler, porque você sempre me lembra que "nunca é tarde para me salvar".

Obrigado por tanto!

Jaya Magalhães disse...

Óbvio que, assim como Wendel, Legião vem na mente assim que a gente lê o título. E você, amigo, nunca perde essa profundidade inacreditável de acessar as palavras. O texto é um grito e um consolo, ao mesmo tempo. É aquele momento onde a gente transborda e a gente mesmo se carrega.

"Eu compro o que a vida me entrega, com a temperança de quem precisa serenidade e otimismo para não debruçar sobre as escolhas fáceis."

Ainda é cedo. E para desistir, sempre será. Por isso continuamos. O único caminho possível é esse: em frente. (ENFRENTE!)

Um beijo.