Fora de frequência

13/02/2022

Foto: Mikhail Rudenko / IstockPhoto












Desde cedo, eu sempre tive a impressão de que o meu som tinha uma batida diferente. Com tanto barulho (ao redor), eu o ouvia com clareza, como se eu ecoasse quase inteiramente, em uma onda de radiofrequência distante e tênue, daquelas difíceis de sintonizar. Como se eu existisse em um canal de onda AM, aqueles canais de rádio bem escondidos, camuflados em meio a tanto chiado. Meu coração assimilou essa ideia por eu ter tido, até hoje na minha vida, tão poucos ouvintes, uma vez que só alguns já pararam para me ouvir, me entender, dar a mão.

É frustrante não encontrar entendimento, aquele olhar de quem se vê e se identifica, ou simpatiza nas entrelinhas de uma melodia; aquele sorriso de quem ouve uma música e se sente abraçado, quase que com o coração traduzido – e embalado – por aquele canto tão singular. Tudo o que eu sempre quis – e ainda necessito – era um pouco de empatia e paciência para me ouvirem, tamanha é a minha introspecção, também. Vez ou outra ainda sinto essa angústia em me sentir tão solitário ao ressoar minhas rimas mesmo em meio a tanta gente.

De nenhuma maneira isso define que minha música é melhor, tampouco pior, pois cada um, na sua medida e a seu modo, tem uma letra única. Até porque meus acordes, muitas vezes, soam desafinados, e como qualquer ser humano, tenho um refrão desajustado; uma música em constante composição. O que me incomoda não é a qualidade do áudio e da minha afinação, mas como a minha música repercute solitária em ruas não rotineiras, em um mundo onde as pessoas pararam de se atentar ao essencial. Não desejo aclimatar, mas apenas ser ouvido.

O que me preenche é esta sensação de que eu sou gênero vencido, como se eu me deslocasse em um ambiente que ouvisse preferencialmente funk, e eu fosse MPB. É um sentimento de arrasto, quase como se eu fosse pressionado a me esvair, a fugir e me esconder. Sinto-me abafado com tanto barulho. Sou entonação que não se ouve, bem distanciada do comum, partitura pouco convencional, som do qual poucos apreciam ou até então não conheceram. Sinto-me diariamente pressionado, refém de um mundo, de uma vida que busca, a todo momento, me equalizar à frequência pela qual todo mundo se transmite. Mas não é o que eu quero.

Faço a mea-culpa por ser alguém tão fechado, e não dar o espaço e a confiança suficientes para me conhecerem melhor. Pois, os muros que a vida me fez levantar, enfraquecem o sinal dessa onda por onde eu transmito (minha música) e que vem de tão distante dentro de mim. Sendo assim, sou consciente da minha responsabilidade em me tornar mais acessível, mais aberto, a mudar e tornar minha música mais sintonizável, sem precisar me adequar e correr o risco de perder a minha identidade e tudo que me diferencia dos demais. Deus me colocou fora da frequência por alguma razão, e eu só quero encontrar gente que me acolha e compartilhe um olhar de afeto e complacência; um ouvido atento. Nada mais.


Aspas do Autor: Depois de muito tempo ausente daqui, e perdido, escondido e refletindo, hoje quero me reativar,  ressignificar a minha escrita e o caminho da minha poesia. Vamos botar essa música para tocar novamente. Agora em outro ritmo. Espero que ela se torne audível.

3 comentários:

Wendel Valadares disse...

"Eu vou equalizar você numa frequência que só a gente sabe..."

Alê, que texto bonito e dolorido. Vezenquando eu também me sinto assim, música antiga que não toca na rádio. Parece que tá todo mundo no spotfy e a gente, que é disco de vinil, ficou tocando em poucas vitrolas que restaram.

Mas o bonito disso tudo é pensar que a gente ainda é música, que a gente ainda dá um som maneiro. E, dependendo da frequência, a gente até arrisca uns passinhos de dança.

Tua música é rara, meu amigo. E é por isso que eu já garanti meu ingresso vitalício pro teu show.

Bandys disse...

Olá meu querido,

Cante, dance e viva a sua musica. Eu me identifico, mas nunca deixei de ser a minha melhor musica. Você é luz, você é muito especial. Que venham todos os violinos ouvirem seu cantar maravilhoso. Que importa a plateia??
A vida é bela.
Esute a letra dessa musica, e vem comigo...
Te amodoro garoto.
Não se esqueça disso,
Beijos daqui

Se você vier
Pro que der e vier comigo
Eu te prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva, se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça, na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar
Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor (oh, oh, oh)
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo
Se você vier
Pro que der e vier comigo
Te prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva, se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça, na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar
Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto, esse tonto
Esse tão grande amor
Grande amor
Se você quiser
E vier pro que der e vier
Comigo
Comigo
Comigo


Compositores: Alceu Valenca

Bandys disse...

deixo meu sorriso procê..

A fé para acreditar e permanecer.
O sonho para determinar e percorrer.
A saudade para lembrar e não perder.
O amor para cativar e bem querer.
A amizade para emanar e florescer.
E um tudo de melhor para viver...

☺☺☺☺