Cativeiro

10/07/2010




Teve horas que eu me sentia frio. Mesmo no calor insuportável daquele quarto. Mas um frio medido pela minha aflição solitária. E no frio insuportável da noite, eu suava. Porque os meus medos permeavam a minha mente. Eu tremia da cabeça aos pés. Mas de angústia. Não encontrava conforto em nada naquele cubículo. De qualquer lado podia cair. Via imagens de terror e ouvia vozes de agonia. Tive medo; muito medo de abrir os olhos. Medo de dormir. Medo de não ter aquele chão.

Meu corpo sentia o peso dessa sensação. Mesmo estando fraco e desnutrido. Não comia há uma semana mais ou menos. Raramente bebia água. Sentia fraquejo ao arquear os membros. A respiração era frágil e a pela já estava seca. Estava numa ladeira. E dificilmente voltaria. Meu refúgio ali era a cama. Que ficava bem no meio. Lá eu me recolhia e fico debruçado no colchão duro, porém, mais confortável e menos frio que o chão. Não conseguia pensar em nada. Já nem sabia se eu estava consciente da minha razão.

Estava visivelmente desorientado. A esta altura pouco importava quanto tempo tinha passado mesmo. Se um dia ou um mês, eu continuava morrendo. A cama ali seria o leito da minha morte. Ali eu sabia que o tempo não importava. Nem me permitia tocar no chão. Na cama eu me sentia mais seguro. Aquele quarto era o meu mundo. E na cama eu tinha paz. Só assim eu me sentia vivo.

Eu estava morrendo. Eu sentia o mundo escurecer. Naquele momento eu torcia para que aquilo se acelerasse. Iria passar a dor. Eu enfim iria descansar. E fui assim, até onde não conseguia mais respirar. Nem mesmo tinha forças para me mexer ou pensar. O corpo sabia exatamente que minha vida estava na contagem regressiva. Ele se arqueou e se recolheu. Minha alma praticamente se extinguiu. A morte só esperava o momento certo para ceifar a minha vida. Era inevitável e eu não acreditava mais.

Mas foi quando menos acreditei, e quando menos tinha consciência que eu fui salvo. Minha sofreguidão estava latente. Não pude identificar nada. Minha visão estava turva, e eu tonto. Não soube dizer quem tinha acabado de entrar. Lembro-me de vultos. E de quando apaguei. Por um tempo imaginei que tinha morrido. E de certa forma foi sim. Após um bom tempo acordei num hospital, acompanhado da minha esposa e do meu filho. Aliás, não acordei não, eu renasci.

 
 
 
 
Aspas do Autor: É doloroso explorar um mundo em que você se imagine encarcerado, ou preso de alguma forma, sem poder viver. Preso não vivemos. Quando nos libertamos, principalmente do cativeiro que há dentro de nós, nós renascemos. E assim é. Bem, ando com pouco tempo e o trabalho intenso tem me impedido de escrever direito. E me desculpem se ando ausente. Meu afeto à todos.

16 comentários:

Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ NARA CABRAL Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ disse...

OLA
SEUS TEXTOS ,SEMPRE SURPREENDENDO
BOA SEMANA
ABRAÇO

Rebeca Amaral disse...

realmente, Alê, é difícil se imaginar nessa situação.
mas é um aprendizado. o sofrimento é um aprendizado muito eficiente.
quando saímos de uma situação tão extrema quanto essa, mudamos também o nosso olhar diante dos sentimentos, reconstruímos os nossos valores e mudamos as nossas prioridades.

belo texto. mais uma vez fiquei presa à tuas letras!

beijo grande!

Ataniel Santos disse...

Estava precisando dessas palavras..Obrigado!Sei que não estou mais preso, a cadeia que me prendia foi rompida!Graças somente a Deus! Agora poderei ser feliz..
Obrigado pela visita..
Até mais!

Anônimo disse...

Pois é, se considerarmos metaforicamente, a prisão pode ser nós mesmos, nosso preconceitos e limites. A salvação talvez Deus ou a esperança, ou a mudança... Lindo!

Naia Mello disse...

Sofrer doí. No entanto, se faz necessário para aprender alguma coisa.

Unknown disse...

As vezes morrer significa renascer em uma vida mais feliz.
Se for assim eu topo(lógico que no modo poético das palavras pq eu quero viver muuuuuuuuuuito)
Amo tu

Unknown disse...

Ah,falei de prisão lá em casa tbm.De prisão de amor.

Umrae disse...

Acho que é por isso que dizem que literatura é um exercício de empatia. É aprender a se colocar no lugar do outro, a sentir o que ele sente, a imaginar tudo o que se passa nos pensamentos dele.
Você faz isso com maestria.
Bjos

Sibele disse...

Oi,meu caro ALF!A vida anda corrida pra todos, pois é muitas vezes somos vítimas de nosso próprio cárcere e do nosso próprio medo de viver de fazer as coisas acontecerem e serem diferentes.
uma ótima semana!
Cuide-se!
Beijossss

Anônimo disse...

Senti um alívio ao fim do texto. Me senti angustiada, frágil, fraca e fria. As suas palavras fizeram nascer grades em volta de mim. Ah não, a liberdade é essencial.
Boa semana, Alexandre. *-*

:: Mari :: disse...

Que texto profundo, é meio chocante, mas quando chega ao final dá um alivio...
Esse final parece com o que aconteceu comigo. Renasci pra vida e hoje sou uma pessoa melhor e feliz.

Obrigada pelo carinho que deixou no tic tac, no meu aniversário, amei viu?!?!

Bjos

Bill Falcão disse...

Parece que vivemos nos livrando de uma prisão após a outra, Alf. Viramos especialistas em fugas. Mas é preciso.
Grande abraço!

Gabi disse...

eu andava me sentindo assim, meio prisioneira. tô voltando ao meu ritmo meio devagar, mas tô.

abraço ;*

Paulinha disse...

Noossa, mt triste... as vezes somos prisioneiros de nós mesmos...

Autora disse...

Nossa!Este post me prendeu de um jeito extremo.Momentos de sofrimento que passaram-se,mas não só no exterior do corpo,mas no interior da alma,pois ''as vezes nossa alma fica num estado,fica pequena e arde o coração apertado''..

Às vezes nós mesmos nos aprisionamos dentro de nós, precisamos nos soltar,nos libertar,viver.

Bandys disse...

Só quem renasce entende o sentido da vida.(Valores)
Tomei a liberdade de vir te conhecer.
Um abraço